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terça-feira, 2 de junho de 2009

Minha lista de aves do Pantanal

Coloco abaixo, só para compartilhar, minha lista de pássaros do Pantanal. Não mudo nada. A lista é trilingue: inglês, português e latim (científico). Há notas em espanhol. Nos nomes em português aparecem também versões pantaneiras. Por que inglês primeiro? Porque a lista era para o meu cliente estrangeiro especialmente os de lingua inglesa, brancos, classe média alta ou ricos (mas não milionários) e geralmente protestantes. A lista tinha o propósito também de divertir os hoteleiros de Miranda especialmente o Aristeu Symczak do Hotel Pantanal. Eles riam quando eu dava explicações do tipo: vamos ver principalmente psitacídeos à tarde, caprimulgídeos na boca da noite e de manhã acordaremos com o canto de icterídeos - isso no centro de Miranda ou no máximo a um KM de distância do centro. Os nomes em português estão em itálico. Hoje noto que há alguns problemas, primeiro porque quando passei para o blog a formatação de lista se perdeu. Há coisas que nem me lembro porque fiz. Estou trabalhando nas mudanças!


Lista de algumas aves do Pantanal - Matogrosso do Sul
Lista de algunas aves de Pantanal - Matogrosso do Sul
List of some birds in the Pantanal of Southern Mato Grosso, Brazil

RHEIDAE
Greater Rhea Ema Rhea americana

TINAMIDAE
Spotted Tinamou Codorna Nothura maculosa
Red winged Tinamou Perdiz Rhynchotus rufescens
Small billed Tinamou --- Crypturellus parvirostris
Undulated Tinamou Jaó Crypturellus undulatus

PELECANIDAE
Neotropic Cormorant Biguá preto Phalacrocorax olivaceus**
Anhinga Biguá-tinga Anhinga anhinga**

CICONIDAE **
White-necked heron Garça cinza Ardea cocoi
Great Egret Garça branca Casmerodius alba
Snowy Egret Garça branca-pequena Egreta thula
Cattle Egret Garça companheira Bubulcos egreta
Whistling Heron Maria-faceira Syrigma sibilatrix
Rusfescent Tiger Heron Socó-boi-grande Tigrissoma lineatum
Pinnated Bittern Socó-boi Botaurus striatus
Striatated Heron Socozinho Butorides striatus
Black-crowned night-heron Socozinho dorminhoco Nyctorax nyctorax
Manguari Stork Tabuiaiá/ João Grande/ Cegonha Ciconia maguari**
Jabiru Tuiuiú / Jaburu Jabiru mycteria**
Woodstork Cabeça-seca Mycteria americana**
Buff-necked Ibis Curicaca / Despertador Theristicus caudatus**
Plubeos Ibis Curicaca Real / Chumbo Theristicus caerulescens
Green Ibis Tapicurú / Chapéu velho Mesembrinibis cayennensis
Bare-faced Ibis Tapicurú-preto/ maçarico Phimosus infuscatus
White-faced Ibis Caraúna Plegadis chihi
Roseate Spoonbill Colhereiro Ajaja ajaja**

ANSERIFORMES
Southern Screamer Tachã / Anhúma-póca Chauna torquata **
White-faced tree-duck Treré/ Marreca piadeira Dendrocygna viduata
Black-bellied tree-duck Marreca cabocla Dendrocygna autumnalis
ulvous tree-duck Marreca caneleira Dendrocygna bicolor
Brazilian duck Marreca Ananaí Amazoneta brasiliensis
Muscovy duck Pato-do-mato/ Patão Cairina moschata **

FALCONIFORMES
Black vulture Urubu comum Coragyps atratus
Turkey vulture Urubu-de cabeça-vermelha Cathartes aura
Lesser-yellow-headed-vulture Urubutinga/urubu-de-cabeça amarela Cathartes burrovianus
Snail kite Gavião caramujeiro Rosthramus socialbilis
Black-collared kite Gavião-belo ou velho Bussarelus nigricolis
Savanah Hawk Gavião-casaco-de-couro Heterospizias meridionalis
Great Black Hawk Gavião-preto ou negro Buteogallus urubutinga
Crested Caracara Carcará / Carancho Polyborus plancus
Yellow-headed Caracara Carrapateiro / Pinhé Milvago chimachima

GALLIFORMES
Rusty-margined Guan Jacupemba Penelope superciliaris
Chaco Chachalaca Aracuã Ortalis canicollis**
Black-fronted curassow Mutum Crax fasciolata
?-piping Guan Jacutinga Penelope pipile
?- piping Guan Jacutinga Penelope pipile granji

GRUIFORMES
Limpkin Carão Aramus guarauna
Gray-necked wood-rail Saracura Aramides cajanea
Common gallinule Frango d’água Gallinula chloropus
Red-legged Seriema Seriema Cariama cristata

CHARADRIFORMES
Wattled Jacana Jaçanã / Cafezinho Jacana jacana
Southern Lapwing Quero-quero Vanellus chilensis
South American Stilt Pernilongo Himantopus himantopus
Yellow-billed tern Trinta-réis Sterna superciliaris**
Large-billed tern Gaivota Comum Sterna simplex**
Black skimmer Talhamar / Taiamã Rynchops nigra**

COLUMBIFORMES
Picazuró pigeon Pomba trocaz/ Trocal / Asa branca Colomba picazuro
Pale-vented pigeon Pomba-verdadeira Columba cayanensis
White-tipped dove Juriti Leptotila verreauxi
Eared dove Pomba-do-bando Zenaida auriculata
Blue ground-dove Rola azul / Rolinha Claravis pretiosa
Picui ground-dove Rolinha mirim Columba picui
Ruddy ground-dove Rolinha-caldo-de-feijão Columbina talpacoti
Scaled-dove Fogo-apagou Scardafella squamata

PSITACIDAE
Red-and-green macaw Arara vermelha Ara chloroptera
Blue-and-yellow macaw Arara canindé Ara ararauna
Hyacinth macaw Arara Azul Anodorhynchus yacinthinus ***
Peach-fronted parakeet Jandaia estrela Aratinga aurea
Black-hooded parakeet Jandaia-de-cabeça-preta Nandayus nenday
Torquoise-fronted parrot Papagaio verdadeiro Amazona estiva
Monk parakeet Periquito-de-peito-cinzento Myopsitta monachus
Canary-winged parakeet Periquito-do-campo Brotogeris versicolaris

CUCULIFORMES
Smooth-billed ani Anu-preto Crotophaga ani
Guira cuckoo Anu-branco Guira guira
Pheasant cuckoo Saci Dromococcyx phasianelus
Dark-billed cuckoo Papa-lagarta Coccyzus melacoryphus
Squirrel cuckoo Alma de gato Piyaya cayana ---

STRIGIFORMES
Barn Owl Suindara Tyto alba
Ferruginous pigmy owl Caburé Glaucidium brasilianum
Tropical screech owl Corujinha-do-mato Otus choliba
Burrowing owl Coruja do campo/ Coruja buraqueira Speotyto cunicularia

CAPRIMULGIFORMES
Caprimulgus sp --- ---
Nictydromus aubicolis --- further study necessary (?)

TROGONIFORMES--- Surucuá -de- barriga-amarela Trogon viridis
--- Surucuá-de-coleira Trogon colaris
Blue-crowned trogon --- Trogon curucui

APODIFORMES

CORACIFORMES
Ringed kingfisher Matraca / martim-pescador Ceryle torquata
Amazon kingfisher Martim-pescador-verde Chloroceryle amazona
Green kingfisher Martim-pescador-pequeno-verde Chloroceryle americana
--- Martim-pescador-pequeno-pintado Chloroceryle inda
--- Martim-pescador-miudinho Chloroceryle aenea

PICIFORMES
--- Jacamacira Galbula ruficada
Toco toucan Tucanuçu Rhamphastos toco
Chestnut-eared arasari Araçari/ Tucaninho Pteroglossus castanotis
Crimson-crested woodpecker Pica-pau-de-topete-vermelho *Campephilus melanoleucos
Cream-backed woodpecker Pica-pau-de-topete-vermelho Campephilus leucopogon
Robust woodpecker Pica-pau-de-topete-vermelho Campephilus robustus
Field flicker Pica-pau do campo Colaptes campestris
Blond-crested woodpecker Pica-pau-de-topete-loiro Celeus flavescens

PASSERIFORMES
Red-billed scythebill Arapaçu de bico-torto Campilorhamphus trochilirostris
Black-banded woodcreeper Arapaçu-grande Dendrocolaptes picumnus
Great rufous woodcreeper Arapaçu-do-campo Xiphocolaptes maior
Rufous hornero João de Barro (Amassa barro) Furnarius rufus
Brown Cacholote Casaca de Couro Pseudoseisura (?)
Greater Thornbird Carpinteiro Phacelodomus rififrons
Sooty-fronted spinetail Carpinteiro Synalaxis frontalis
Great antshrike Chocão Taraba major
Barred antshrike Choca-barrada Thamnophilus doliatus
Variable antshrike Choca-da-mata Thamnophilus caerulescens

TYRANTS
Great Kiskadee Bem-te-vi-grande Pitangus sulphuratus
--- Bem-te-viznho Pitangus lictor
Tropical Kingbird Sirirí Tyranus melancholicus
Cattle Tyrant Sirirí-cavaleiro Machertornis rixosus
Vermilion Flycatcher Príncipe/verão/S.Joãozinho Pyrocephalus rubinus
Gray monjita Viuvinha Xolmis cinerea
Fork-tailed Flycatcher Tesoura Muscivora tyranus
White-monjita Noivinha Xolmis irupera
Pied-water Tyrant Lavadeira Fluvícola pica
White-headed Marsh Tyrant Freirinha-do-brejo Fluvicola leucocephala

HIRUNDINIDS
Barn Swallow Andorinha-do-bando Hirundo rustica
Rough-winged Swallow Andorinha-asa-de-serra Stelgidopterix ruficolis
Blue-and-white-Swallow Andorinha-azul-e-branco/das casas Notiochelidon cyanoleuca
Bank Swallow Andorinha-do-barranco/parda Riparia riparia
Gray-breasted Martin Andorinha-doméstica-grande Progne chalybea
White-winged Swallow Andorinha-do-rio Tachineta albiventer

CORVIDAE
Purplish Jay Gralha do Pantanal Cyanocorax cianomelas
Plush-crested Jay Gralha Azul Cyanocorax chrysops

TROGLODITAE
House Wren Corruíra / cambaxira Trogloditas aedon
--- Garrinchão-de-barriga-vermelha Thoryothorus sp
--- Garrinchão Campylorhynchus turdinus
--- --- Thryothorus leucotis
--- --- Thryothorus genibardis
--- --- Thryothorus guarayanus

MIMIDAE
Chalk-browed mockingbird Sabiá do Campo Mimus saturninus
White-banded mockingbird Sabiá-de-cinta-branca Mimus triurus
Ruffous-bellied Thrush - Sabiá-laranjeira ---

ICTERÍDEOS
Trupial João-pinto/corrupião Icterus icterus**
Epaulet --- Icterus cayanensis
Shiny cowbird Chopim Molothrus bonaerensis
Choppi blackbird Graúna Gnorimopsar chopi
Solitary cacique Iraúna Cacicus solitarius
Bay-winge-cowbird Asa-de-telha Molothrus badius
Yellow-rumped cacique Japi/xexéu Cacicus cela

TRAUPÍDEOS
Sayaca tanager Sanhaço-cinzento Thraupis sayaca
--- Sanhaço do coqueiro Thraupis palmarum
White-lined tanager Tiê-preto Tachyphonus rufus
Red-crowned-ant-tanager Tiê-do-Mato Grosso Rabia rupica
--- Tiê-galo Tachyphonus cristatus
Brazilian tanager Pipira vermelha/Bico-de-prata Remphocephalus carbo
Safrom finch Canário-da-terra Sicalis flaveola
Red-crested cardinal Galinho-da-campina Paroaria coronata
Yellow-billed cardinal Galinho da campina/Cardeal Paroaria capitata

EMBEREZÍDEOS
Pumbleous-seedeater Patativa Sporophila plumbea
Rusty-collared-seedeater Papa-capim (several) Sporophila collaris
Lined seedeater Bigodinho Sporophila lineola
Double-collared-seedeater Coleiro Virado Sporophila coerolescens
Graysh saltador Trinca-ferro Saltador coerulescens
Red-crested finch --- Coryphospingus cuculatus
Blue-black grassquit Serra-serra/
.... Tiziu Volatina jacarina

Books checked for names accuracy:
- (Aves de Argentina y Uruguay) Birds of Argentina & Uruguay
- Pássaros do Brasil, Eurico Santos, BH/MG/Brasil
- Conheça o Pantanal, Prof. Nidia Magalhaes, SP/Brasil
- Birds of Venezuela, Schauensee / USA
Nota:
** Os 2 asteriscos ao lado das espécies indicam que espécies se identificam mais com o Pantanal embora sejam vistos na planície borda do Pantanal ao redor da Serra da Bodoquena.
** Los 2 asteriscos al lado de las especies indican que especies se identifican más con Pantanal, pero son avistados en las planicies fronterizas al Pantanal al rededor de la Sierra de Bodoquena.
**The 2 asterisks indicate that birds are more related to the Pantanal floodplain even though they can be seen over the Serra da Bodoquena following the influence of the Pantanal.

***A arara azul é muito pantaneira embora chegue muito próximo à Serra da Bodoquena no que corresponde ao município de Miranda.
*** El guacamayo azul (Anodorhynchus yacinthinus) es de Pantanal pero puede llegar muy próximo a la Sierra de Bodoquena en la parte que corresponde al municipio de Miranda.
*** The hyacinth macaw is very “pantaneira” never seen over the Serra da Bodoquena even though they come very close. Hyacinth macaw do come to Miranda.
By Jackson Lima

sábado, 9 de maio de 2009

Caiaque no Pantanal: algumas fotos da região do São Pedro

Por Jackson Lima

Tres momentos da viagem solitária de caiaque, o instrumemnto apropriado para a exploração da natureza. Nada de Indiana Jones. É mais no estilo meditação. Sei da existência de um livro na França que passa dicas de yoga para caiaquistas. Há algo de mísitico nisso. Sempre fui disso. Hoje, continuo propondo viagens que seja o encontro do eco+espiritual+prazer+conhecimento que leva à descoberta de SI. Passar tranquilo pelos jacarés, pelos grandes e pequenos pássaros, lontras, capivaras, cobras, peixes, Isso é bonito. Em uma tardezinho, parei num barranco, para descansar e fumar (infelizmente na época, eu fumava, hoje parei). Levei um susto porque no meu lado, entre o barranco e eu, diretamente abaixo, havia um peixe dormindo. Não sei que peixe era. Tinha uns 40 ou 50 centímetros. É um privilégio! Peixe dormindo?
Quando me cansei de olhar, fiz um movimento para puxar-me para a terra e ele se assustou. Aí vi a violência da arrancada dele para fugir. Só de caiaque se pode fazer isso. Nem canoa consegue dar esta oportunidade. Na canoa a gente está muito alto da água. Já é uma "armação" estranha para o animal.

Quando me cansei de olhar, fiz um movimento para puxar-me para a terra e ele se assustou. Aí vi a violência da arrancada dele para fugir. Só de caiaque se pode fazer isso. Nem canoa consegue dar esta oportunidade. Na canoa a gente está muito alto da água. Já é uma "armação" estranha para o animal.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Coisa de Turista apressado (1)


Foto: Família com quem morei na Estrada Parque. O senhor apoiado no motor é mencionado no texto. Ele queria capturar o joão-pinto. Adorei a famíla, as crianças. No texto menciono também o artigo do jornal mostrado aqui

Jackson Lima
Escrito em Miranda (MS)1996

Abri o jornal Correio do Estado do primeiro final de semana de junho de 1996. Lendo a matéria vi a seguinte frase: “ver no Pantanal Mato-Grossense apenas um espaço geográfico privilegiado pela Natureza seria o olhar superficial de um turista apressado”. Quem escreveu foi historiador Cezar Augusto Benevides. Era na abertura de um artigo que trataria das complexidades do Pantanal do Mato Grosso do Sul. Antes de terminar o artigo do professor Benevides, eu já tinha decidido usar a sentença do professor em algum escrito meu.

“Coisa de turista apressado” – assim ficou a frase após um processo de simplificação. Quem quiser pode achar ruim mas é verdade. Turista é apressado. E pior que o turista, nessa pressa, é a “industria” do turismo.

Ora, se turista vem com tanta pressa, por que Vem? Eu não seria mais um deles. Pior, não queria ser mais um agente de turistas apressado. Há menos de um ano, e desembarquei no Restaurante Zero Hora (em Miranda Mato Grosso do Sul), local entidade que faz as vezes de rodoviária, ponto de encntro e até Centro Social.

“Vou fazer a primeira agência de turismo ecológico do Brasil”, anunciei para mim mesmo e esperava sucesso imediato. Não veio, é claro.

Por quê?
Porque o turista é apressado. As agências com as quais tentei trabalhar me diziam: “meu cliente não tem tempo”.

E pra que vem? O Pantanal não pode ser visto em um dia para se encaixar na programação urbanóide de algum eco-urbo-turista. Pantanal é como sexo. Você não pode partir para o orgasmo de cara, sob o risco de gozar sozinho e passar por machista, porco chavinista e cafona. Claro, o orgasmo está ali no final da linha mas para chegar até lá é preciso atravessar pontes, as preliminares, as variedades, as surpresa e daí...

Nesta nova linha filosófica, [decidi] que o Pantanal está sendo estuprado pelos olhares apressados. Ou, no mínimo, o turismo está gozando sozinho. Há aqueles que ao desembarcarem no Aeroporto de Campo Grande ou de Cuiabá, sei lá eu, anunciam: quero ver uma sucuri bem grande. Outros, querem ver uma onça e outros animais. Creio que é por isso que alguns hotéis mantêm sucuris, macacos, onças e outros animais. “São para os turistas” – avisam.

O povo do Pantanal, aquele nas fazendas, boiadeiros, os peões, não conseguem ver o que os turistas fazem na vida. Um menino, em Miranda me disse, após eu perguntar-lhe o que queria ser na vida, pergunta estúpida, ele me respondeu: turista. É por isso que as pessoas fazem coisas estranhas. É pensando nos turistas. Um dia desses vi um senhor, desesperado, correndo atrás de um João-pinto. Ele queria capturar o joão-pinto. João-pinto é um pássaro de cores vivas e irreais é uma combinação de laranja fosforecente com preto. Pertence aos icterídeos. Do tipo xexéu, oropêndola e outros.

- Pra que o senhor quer pegar o João-pinto?
- É pra botar numa gaiola prus turista. Esse é um passum raro. Eles quer fotografar e eu vou cobrar dez reá ou até 20 dóla por foto. Na terra deles uma foto vale uma fortuna.

- Não é assim seu Zé. Niguém paga para tirar foto, especialmente de um pássaro preso, eu disse.

O João-pinto mais uma vez voou deixando um pantaneiro desiludido.

Outros turistas não têm o preparo intelectual para entrar Pantanal adentro. Eles fazem grandes estragos. Minha vontade comercia de trazer turistas para a região diminuiu muito após uma experiência traumática. Eu havia trazido um grupo de um estado vizinho. Qual não foi a minha surpresa quando descobri que um dos componentes do meu grupo tinha pedido a um residente local para traze-lhe um jacaré morto. A grande tesão desse “cururu” era comer um jacaré assado ou frito no Pantanal. Depois como necessidade, ele pensava levar o coro para fazer remédio para alguma doença que se cura com chá de jacaré.

Foi uma tragédia pessoal a descoberta desse ato. Foi também o primeiro passo de um grande prejuízo financeiro. “Não quero mais turistas” – foi anúncio feito por mim. Meses atrás os jornais do Estado anunciaram que o Governo incentivaria o turismo contemplativo. Na foto (ACIMA) utilizada para ilustrar, o projeto mencionado era o meu. A foto foi clicada pelo colega Ney de Souza. Aparecíamos eu e mais dois turistas “contempladores” vendo o Pantanal de caiaques.

Aqui há um pequeno problema de interpretação de turismo. Para mim todo o turismo deve ser contemplativo. Mas em diferentes partes do país o turismo tem interpretações diferentes. No Pantanal [turismo] é pesca. Em outros lugares, [como na minha cidade], turismo é muamba.

- Comé, tá dando peixe, aí?
- tá dando pacu...
- Só piauçu?
- Tá dando nada.

Esses trechos de conversação é o que mais se escuta em Miranda. Importante vendedora de isca para pescadores. Chuto que 99% do pessoal do Brasil que vem ao Pantanal é para pescar. São gente fina, alguns com bagagem intelectual. Como o senhor de educação superior que preside o departamento de doutorado de uma das melhores universidades do Brasil. Talvez na sala de aula o Senhor fale “doutores”. No Pantanal baixa o santo e o vocabulário do “home” muda. Os atos também. O membro da inteligentsia universitária chegou ao extremo de disparar seu revolver calibre 38 na direção de um jaó – um pássaro não muito farto no resto do Brasil.

“Nem todo mundo que tem dinheiro para financiar uma viagem ao pantanal deveria vir aqui” – escrevi num boletim que editei sobre a Grande Planície. A informação era bilíngüe para que servisse para os dois bandos. O nacional e o internacional.

Vi uma vez um mal preparado guia servindo de cicerone para um grupo de uns quatro suíços de fala alemã. Depois de rodar e rodar atrás de um jacaré que tivesse o tamanho que os suíços queriam a vítima apareceu. Todos pararam para encontrar a vítima. O jacaré imenso, não se mexia. Não dava sinal de vida. Desconfiados os suíços queriam saber, desta vez, se o jacaré estava vivo. Ou estaria morto? O guia-cicerone assegurou que o jacaré estava vivo e atirou a primeira pedra para que o jacaré se mexesse. O barulho nas costas do “sauro” ressoou como um tambor velho. Mais pedras choveram. Depois de muitas pedradas, o jacaré se moveu para a direita, para onde estava os delinqüentes helvéticos, percorre mais um metro e parou. Na hora, imaginei, que o jacaré observava os cinco suíços com um ar de superioridade invejável. Do alto de sua experiência de descendente de dinossauros parecia saber coisas que os cidadãos da Confederação Suíça não sabiam. O jacaré tinha paciência e em nenhum momento, demonstrou, ter pensado em partir para o pequeno grupo e ter quebrado alguns pares de pernas. Que diriam esses suíços ao retornarem ao seu país de Primeiro Mundo, àquele Clube no qual o Brasil tanto quer entrar?

Ainda na área de pessoas despreparadas que vem ao Pantanal, lembro-me de outra imagem perversa. Desta vez foi no Passo do Lontra, local que tem sua cota de gente inconsciente. Um caracará ou carcará – um falcão que reina na Planície Pantaneira decolou levando atrás uma fita branca de pelo menos um metro e meio de comprimento. Que encontro como teria aquela fita, ou plástico, enganchado nos pés dele. Como eu estava meio fixo na região, observei esse carcará voando com a fita por muito tempo.

É impressionante o número de animais que são mortos nas estradas asfaltadas que cruzam o Pantanal. Em dois anos, que estou por aqui, indo e vindo, nunca vi uma tamanduá-bandeira vivo. Todos estão colados no asfalto quente da BR 262 que liga Campo Grande a Corumbá; Além do tamanduá-bandeira há muitos outros: capivaras, sucuris,jacarés, veados, lobinhos.

Descobri que o Pantanal estava exercendo uma influencia sobre mim muito maior do que eu tinha esperado. Que teríamos uma relação intensa e que para tanto eu necessitava conhecer, estudar, pesquisar, andar. Conscientemente, eu evitei toda e qualquer identificação com a classe chamada “turista”. Eu deveria explorar e conhecer o Pantanal que o Pantaneiro conhece. Vivendo como ele quando necessário e pior do que ele na maior parte do tempo.

Em Miranda, comecei a dar idéias que poderiam ajudar na transformação da cidade em um ponto de partida para expedições ecologicamente corretas. Sugestões que pudessem atrair clientes (nunca digo turistas) conscientes do todos os países do mundo. Recebi convites para visitar pesqueiros que queriam ou querem pegar carona no “turismo eco”. É possível. Contudo, alguns, de cara, me deixaram ver que o projeto era difícil.
- “ Quero que você veja o meu camping. Lá é tudo ecológico”, me disse um proprietário. Lá fui eu pedalando a minha bicicleta. Uns 20 quilômetros para ir e outros 20 para voltar. Um passeio agradável e revelador. Explorando as lindas paisagens de Miranda. Aquelas que quem passa a cem por hora pela BR não vê. O local do camping, muito agradável. Para mostrar que o local era realmente selvagem, o capataz me mostra um couro de jaguatirica anda fresco. Um couro que até recentemente era parte de um animal.

Disse ele: “aqui tentamos ser ecológicos. Mas acontece que ela estava comendo as galinhas”.

Eu disse, depois de certo esforço: “você tem que escolher entre camping ou criação de galinha”. Preferi não dizer nada sobre a “doutrina” ecológica. Só disse: “Não tem nada pior do que você estar dormindo de madrugada numa barraca e o galo do camping, bater asas e cantar”.

Mesmo desconfiando do turismo no Pantanal, com tendência à gastrite aguda e vendo a falência rodear o terreiro para bater na porta da frente, que decidi registrar uma empresa: Ecoventuras, com sede na Avenida J.P.Pedrossian, em Mirada. A proposta é ótima. Turismo ecológico com toque de aventura. Ou aventura com preocupação ecológica. O carro-chefe da Ecoventuras continua sendo o “caiaque expedição” – minha modalidade – a melhor maneira de ver o Pantanal. É uma modalidade de turismo já recomendada pelo guia de turismo aventura no Brasil. Além do caiaque, pensei introduzir o cicloturismo – quer dizer Pantanal de Bicicleta e safáris de veículos para grupos pequenos e com capacidade de entrar e sair de problemas. Todas as modalidades devendo respeitar a natureza.

Foram no período de testes para as expedições criadas pela Ecoventuras onde aconteceram as aventuras narradas neste trabalho. Aprender foi a palavra mais usada no período e continua sendo. Aprender roteiros, descobrir estradas, fazer amizades e descobrir.

Entre as coisas que se pode confirmar é que todo ser humano tem dois lados, além do esquerdo e do direito. Todos têm um lado aventureiro. Todos têm um lado acomodado. É preciso conhecer o “acomodado” para dar valor a aventura e vice-versa. Caso não haja equilíbrio entre esses dois extremos, pode advir a síndrome do que a ECOVENTURAS chama de “brocha”.

Miranda se encontra em uma encruzilhada. Está ao lado do asfalto da BR 262 num ponto onde se pode tomar a MS 339. A primeira liga Campo Grande a Corumbá e daí com Santa Cruz de la Sierra, La Paz, Lago Titicaca, Machu Picchu e o mundo. A segunda é mais interiorana e leva à Fabrica de Cimento que fica na cidade de Bodoquena. Bodoquena está na serra do mesmo nome e é nesta serra onde fica Bonito com as atrações que todo o Brasil já conhece e que, com muita razão, não se pode deixar estragar.

Ecologicamente, Miranda está numa região de acesso à vários ecossistemas diferentes, biotas, fauna, flora, geomorfologia, hidrologia, climatologia diferentes. A cidade já está no Pantanal. Dois quilômetros do centro é Pantanal. O turista não vê isso deviudo a pressa. As agências não enxergam porque são sensacionalistas. À direita, há inúmeras estradas de terra, trilhas que possibilitam a exploração do “cerrado mirandense” – frase essa que não existe oficialmente. Há várias elevações em Miranda de onde se pode ter uma visão impressionante da área circundante em um raio de pelo 100 quilômetros ou mais. À esquerda, na direção da cidade de Bodoquena, está a Serra. E em tudo isso há um tempero extra: a história. Miranda já existia quando Campo Grande usava fraldas. Em toda a região citada há quase 500 anos de história branca e mais de mil anos de história indígena. Nos últimos 300 anos tem acontecido uma mistura das duas. Da indígena com a branca, dos poderes conflitantes dos reinos da Europa entre si, e finalmente dos conflitos do Brasil, Bolívia e Paraguai. Aí está o ambiente que vamos explorar.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Um avião na estrada


Quando armei minha barraca às margens da Estrada Parque (foto), eu estava acompanhado de minha colega e sócia Alejandra Morra e minha filha Midori. A dona Maria, moradora da estrada às margens da estrada, veio até o local oonde eu armava a barraca e disse:

- Cuidado! se vier uma comitiva, vocês vão ser atropelados.
- Que comitiva? O Governador? O Presidente? - perguntei.

- Não, de boi! Uma boiada! Se se assustarem vocês vão ser pisoteados.

Mais tarde, foi a vez de tentar armar a barraca em outra área e fui avisado que alí não podia.

- Por quê?
- Pode aterrisar um avião.

Eu não acreditei até que um dia, ao voltar das andanças encontrei esse pequeno avião estacionado à beira da estrada.

Meu Pantanal


Esta foto foi feita com uma câmara Olympus Pen emprestada pela minha amiga Renate Perner de Foz do Iguaçu. Tamanha era a minha pobreza. A Renate e o marido Euclides, me deram ainda uma bicicleta Cassola que aparecerá nas histórias que aparecerão adiante neste memo-blog. Acampei por um tempo às margens de um curso d'água conhecido como Rio São Pedro na Estrada Parque. Na época das enchentes a região parece um mar. Daí, quando água baixa parece um lago. Depois, com o passar do tempo, parece um riacho e vai diminuindo até virar um fio d´água disputado (numa boa) por jacarés, pássaros, capivaras e quem quer que queira pegar peixes para comer - falo dos animais. Finalmente, o rio desaperece, e vira terra firme. Em uma dessas incursões pelo riozinho, o lado esquerdo do aterro (estrada) estava seco. O lado direito tinha água e estava na fase de ser lago. Me aventurei para aquele lado. Passei uns dois dias sumido. Um dia pela manhã, depois de desarmar a barraca, me preparar para voltar, encontrei uma terra alta coberta de flores minúsculas. Me deitei, sobre elas. Me afundei nelas e cliquei a foto acima. Como a Olympus tem uma lente grande angular poderosa, foi necessário estar realmente muito perto para tirar a foto. Toda a experiência foi maravilhosa.

Jacaré turístico


Depois de navegar comigo e ver o Pantanal segundo os princípios que eu pregava e tentava passar para o público, a minha cliente, a japonesa que aperece na foto acima, viajou para Corumbá com o marido, ótimas pessoas, e fizeram uma excursão no rio Paraguai. A foto do jacaré amarrado pelo funcinho, humilhado, exposto na frente de um monte de turistas "abilolados", chocou ao casal (infelizmente, me escapou os nomes deles). Mais tarde de Londrina, eles me mandaram a foto e comentaram sobre o constrangimento da cena - que se repete até hoje.