sexta-feira, 6 de maio de 2011

Paraguai 200 Anos! Mapa antigo: época em que rio Miranda era o limite norte do país vizinho

O Paraguai vai completar 200 anos nos próximos dias 14 e 15 de maio. Para marcar a data, a Editorial Tiempo de Historia, lançou uma edição limitada de 500 exemplares do livro Viaje al Paraguay en los años 1818 a 1826 escrito pelo médico e naturalista suíco J.R.Eengger que percorreu o Paraguai um pouco depois da revolução que levou à independência e à ditadura de José Gaspar Rodriguez de Francia. O livro foi recebido com crítica positiva pois ele abre uma pequena janela para a vida cotidiana, relações sociais, natureza, topografia, limites territoriais e informações que se perderam. O livro traz um mapa do Paraguai da época em que o limite norte do País vizinho era o rio Mbotetey (Mbotetei), o atual rio Miranda no Mato Grosso (hoje) do Sul que antes de ser chamado Miranda foi chmado também de rio Mondego pelos portugueses devido aos problemas de geopolítica da época. Outros dados reveladores incluem informações sobre a escravidão no Paraguai. O Paraguai teve escravos sim. O que o Paraguai nunca fez foi importar escravos da África porém empreendedores locais compravam escravos em Buenoas Aires. Segundo Renggen a situação do escravo no Paraguai era melhor que a dos escravos da Argentina e do Brasil. Não havia "pelourinho" e o escravo podia ter até regalias impensáveis em outras "escravolândias". Ranggen lança luz também sobre a escravidão na Argentina. Buenos Aires já teve tantos escravos negros que a população negra era maior que a dos europeus. Para se livrar da população negra, os negros portenhos eram alistados no serviço militar para fazerem parte de uma divisão de infantaria que se deslocava ao Alto Peru. Depois de oito anos de serviço eles ganhariam a liberdade. Mas, infelizmente, poucos voltaram, a maioria da população negra de Buenos Aires foi destruida pelo frio nos Andes.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

De bicicleta à Morraria do Sul (IV) Os Cadivéus ou Kadiwéus (II)

Mais sobre os Kadiwéu (Parte II)

Do alto da serra da Bodoquena olhando para a direção dos Campos dos Índios se pode ver vários núcleos de habitação. Algumas casas isoladas aqui e lá – isso coma ajuda de um bom par de binóculos. São sedes de fazendas. Os Kadiwéus arrendam terras para fazendeiros brancos. Na data em que escrevo este relato há 104 propriedades brancas lá dentro que criam um total de 60 mil cabeças de gado. Segundo notícias que levantei em Campo Grande – a cidade morena – e em jornais do Estado do Mato Grosso do Sul, os Kadiwéus recebiam R$ 150 mil por semestre pelo arrendamento das terras. Na época, Kadiwéus e fazendeiros travavam uma guerra com a FUNAI. O arrendamento de terras indígenas para não-índios é inconstitucional segundo a Constituição Brasileira de 1988. Como as coisas estão, o Ministério Público esta para entrar com pedido de despejo dos fazendeiros e seu gado a qualquer momento. É um problema sério. Para tentar resolver o impasse, índios e fazendeiros já tiveram inúmeras reuniões em Campo Grande.

As duas partes chegaram a um acordo para evitar que o Poder Público passe a expulsar o gado das terras indígenas . A palavra que escolheram é a mesma utilizada hoje no Rio de Janeiro, São Paulo, Nova York e Paris: parceria. Kadiwéus e fazendeiros aceitam uma parceria por meio de suas organizações de classe respectivas. O fazendeiro branco entregaria o gado aos kadiwéus e sairiam das terras. Os Kadiwéus criariam o gado e receberiam 30% do valor do gado comercializado. O fazendeiro ficaria com 70% da operação.

A Associação dos Criadores do Vale do Aquidaban e Nabilqeue (ACRIVAN) é a organização branca aceita. A Associação das Comuidades Idígenas Kadiwéu (ACIK) também. Mas a coisa emperrou do lado da FUNAI. A saída é vista por todos os lados . Há grandes esperanças que a situação seja normalizada ainda em 1996.


A relação Kadiwéu com gado e cavalos tem o reconhecimento histórico dos portugueses e dos espanhóis e, mais tarde, do Brasil e do Paraguai. A partir do século XVI espanhóis e portugueses começaram a trilhar a Planície Pantaneira. Eles procuravam o caminho mais fácil para as montanhas de prata do Peru. Desde esse momento, os guaicurus nome genérico com o qual os kadiwéus ou guaicurus passaram à historia, fizeram guerra aos dois grupos. Foi um desfile de gente. Espanhóis, portugueses, monções paulistas (bandeiras fluviais), paraguaios, jesuítas e brasileiros. Aleixo Garcia foi provavelmente a primeira vítima da guerra decretada pelos guaicurús e seus aliados os paiaguás. Toda a expedição teria morrido em local que aponta para a Boca do Rio Mbotetei – hoje rio Miranda.

Os guaicurús eram ótimos no manejo do cavalo. “Índio e cavalo formavam uma única criatura. Completavam-se, entendiam-se e até conversavam num código de assovios que o homem inventara e o animal logo aprendera”, escreveu M. Cavalcanti Proença, historiador. Antes do cavalo, o Kadiwéu ou guaicuru era caçador, coletador de frutos. Após o cavalo, passou a ser pastor e criador de gado nas planícies do Nabileque. Os registros informam que o primeiro roubo de cavalo praticado pelos Kadiwéus contra os europeus aconteceu em 1672. O cavalo foi uma poderosa ferramenta nas mãos kadiwèus. Eles o utilizavam na defesa, na vigilância e no reconhecimento de seu território. Sobre a habilidade deles com os cavalos escreveu o jesuíta espanhol José Sanchez Labrador: “ ... em seus cavalos não gastam selas ... montam em pelo e para isso de um salto estão em cima deles”. Com o cavalo em mãos, o próximo passo foi passar para a aquisição de gado bovino. A tribo ficara mais forte sob esse novo status. “Como criadores de gado os Kadiweus tinham mais tempo para pensar em política e realizar façanhas” - escreveu Herbert Baldus na introdução do livro de Boggiani.


Entre as façanhas estavam mais guerras contra os inimigos. Quem quer que falasse espanhol, português ou guarani eram inimigos. Enquanto crescia o rebanho de equinos, aumentava também o número de bovinos. Uma verdadeira criação. Ricardo Franco de Almeida Serra, o terceiro comandante do Forte Coimbra, mencionou em relatório enviado a Cuiabá que o número de cavalos sob o poder dos Guaicurús passariam de oito mil.

Outras façanhas dos Kadiwéus incluíam a invasão de aldeias e assentamentos vizinhos de outras etnias. Delas roubavam crianças, mulheres e prisioneiros que eram levados como escravos. Esses pertenciam aos povos guaná, bororó, chiquito, caiapó, caiuaba e entre eles alguns negros e até espanhóis. Todos os autores se apressam em dizer que os escravos dos Kadiwéus não sofriam. Afirmam que os Kadiwéus não levantavam a voz contra os escravos e nem assumiam uma posição de comando. Guido Boggiani conta que em uma noite de frio, na aldeia, durante sua permanência, viu um senhor Kadiwéu procurar uma manta que já estava sendo usada por um escravo Chamacoco. Ao ver que o escravo tinha a manta, deu meia volta e não disse nada além de ter aguentado o frio. Os escravos era usados na agricultura – que era a parte mais sedentária da vida.

Não demorou e as duas potências europeias queriam derrotar os Kadiwéus ou, caso fosse impossível, tê-los como aliados. No caso dos Kadiwéus, Portugal venceu apesar do grande número de portugueses mortos durante os inúmeros encontros desastrosos.
O tenente Francisco Rodrigues, segundo comandante do Forte Coimbra e futuro fundador do Forte de Miranda**, escreveu: “... avaliam-se os portugueses mortos por eles em mais de 4.000”.

Tudo isso foi no passado. Há muito tempo. Hoje os Kadiwéus já não matam ninguém. O Forte Coimbra já não é mais um forte no sentido de estar ali para disparar tiros em navios estrangeiros. Os Kadiweús criam gado. Possuem Toyotas Bandeirantes e antenas parabólicas. Tudo mudou. Muitas das tribos mencionadas por Boggiani não existem mais. Sumiram. Eles ainda pintam. Mas ainda fazem todas aquelas obras que Boggiani narra e que ainda são guardadas no Museu de Assunção? Ou como foram mostradas no auditório do Banco do Brasil em Campo Grande? Tudo mudou menos a serra – que pode estar mais devastada, ter mais crateras feitas por maquinas ou estar pelada pela ação de agricultores. Como estarão os Kadiwéus hoje?

O vento da manhã é fresco e reconfortante. Aqui em cima é um bom local para meditar. Penso nos Kadiweus e só há uma maneira de descobrir como estão hoje. Ainda existe o Nalique? E Etókija? Ainda pintam os rostos com aquelas figuras geométricas complicadas? Utilizam o urucum ou o jenipapo como fonte de tinta? Ainda raspam todos os pelos do corpo inclusive as sobrancelhas, as pestanas e os cílios? Disse Boggiani que eles lhe contaram que raspavam pestanas e cílios por dois motivos: melhorava visão. E, segundo por que não eram cavalos para ter pelos longos e nem eram emas para terem longos cílios. Para descobrir estes e ouros detalhes voltarei um dia, e não muito distante. Trarei livros e fotos dos Kadiwéus vistos por Boggiani – tentarei fazê-los falar sobre eles mesmos. ***
Não é para o turismo. Incluir aldeias indígenas em roteiros turísticos é contra a lei. Pelo menos neste sentido a FUNAI está certa. Do jeito que o turismo é feito, só posso pensar na catástrofe. Grupos de “turistas apressados” olhando e xingando os índios, dando palpites e fazendo comentários idiotas. Não é um encontro de culturas. É uma colisão cultural.

Escutei que recentemente uma equipe da televisão coreana queria fazer uma vista para filmagem na Grande Planície. A ideia era filmar os Kadiwéus. A FUNAI dificultou. Exigiu muitas coisas – entre elas um motor de popa e uma contribuição em dinheiro. A Agência de Turismo que organizava a viagem não gostou. E eu me perguntei: para que um canal de televisão coreano quer filmar os Kadiwéus? Já imaginou o desencontro? O canal não quer ver os índios vivendo como estão. Querem vê-los pelados, pintados. Presenciei certa vez um maquiador italiano pintando uma índia na Amazônia segundo o que ele achava que uma índia daquela tribo, deveria parecer quando pintada. A cor desses índios era o vermelho. Mas o maquiador não aceitou. No filme eles apareceram pintados de preto com amarelo, com pontos brancos e alguns verdes. Foi revoltante. Pobres telespectadores! Esta cena aconteceu na Amazônia Colombiana, na redondeza de Letícia e os povos em questão eram os Yáguas.

Desço do topo da serra com tudo decidido. Farei duas expedições à terra dos Kadiwéus. Uma de bicicleta retomando o caminho a partir daqui, da Morraria do Sul. Outra de caiaque partindo de Forte Olimpo, Paraguai até a desembocadura do rio Nabileque. O plano é, a partir daí, refazer o trajeto de Guido Boggiani. Desta vez, o trecho terrestre será feito em lombo de boi. Se houver algum boi que me permita montar nele.



Notas:
*Jose Sanchez Labrador, jesuíta espanhol autor do livro – El Paraguay Católico, fundou uma missão na boca do rio Ipané

** O Forte de Miranda é um assunto que merece atenção. Provavelmente construído em material não durável, desapareceu sem deixar qualquer pista. Embora se fale muito dele em círculos do eixo Miranda – Aquidauana. A origem da cidade de Miranda vem dele.


*** Não cortei esta última parte para não censurar a mim mesmo. Isso foi algo que disse há quase 15 anos. Voltarei à Morraria para ver como está. Mas para apreciar e desfrutar o que há. Viver e valorizar o dia, o momento!

De bicicleta à Morraria do Sul (III) Os Cadivéus ou Kadiwéus (I)

Estava confirmada minha origem terrestre e aparentemente inofensiva.

– “O hotel está fechado, mas eu sou hóspede lá e você pode dormir na cama desocupada. Amanhã, você acerta com Sinésio”! – sugeriu resolvendo o problema um dos senhores do bar. Ele mora no distrito há mais de 30 anos. Conversamos algum tempo. Eu sentado em uma das quatro camas da Pensão do Senhor Sinésio que também é bar, restaurante, mercearia e panificadora. O pão é feito à moda antiga num forno de barro no quintal.
Pela manhã não havia disposição de voltar de bicicleta. Todos os músculos doíam. O nariz se deleitava em ingerir aquele ar puro livre de poluição e partículas irritantes à minha sinusite. O sol esquentava pouco a pouco. Mas era acompanhado por uma brisa acolhedora. Valeeu a pena ter vindo. O pessoal da pensão se interessa pela minha estória. Depois do café da manhã servido numa área coberta na parte de traz da casa foi hora de explorar a região. Começando pelo jardim da esposa do senhor Sinésio. Hortênsias, outras flores para mim desconhecidas e uns hibiscus híbridos com uma cor de vinho misturado com amarelo. O filho da casa, Ricardo – será mesmo Ricardo? Me acompanhou até o topo da Morraria. A visão é grande, imensa, inesperada. Lá em baixo uma vasta extensão plana que se perde no horizonte em direção ao rio Paraguai, ao país do mesmo nome, ao Chaco, ao Gran Chaco no Paraguai e na Bolívia. É possível ver centenas de quilômetros de uma só vez. Muita coisa aconteceu lá em baixo.

Hoje a terra lá em baixo é uma reserva indigena. São 538 mil hectares de terra pertencentes ao Kadiweus, ou Cadivéus – também conhecidos como guaicurus e até por mbayá. Na toponímia popular local, o grande espaço é chamado de Campo dos Índios. É um daqueles lugares que aceitam nomes mágicos, na fronteira do místico, do poético, do sonho. Para mim, o nome apropriado seria Campos do senhor – Fields of the Lord - como no filme. A maior parte da área que se vê desde a montanha pertence ao Município de Porto Murtinho. A área do Pantanal que se encontra entre a Serra e o Rio é conhecida como Nabileque. É lá onde se encontra o Forte Coimbra construído pelos portugueses para defender a área dos espanhóis.

– “Quatro dias de cavalo você chega ao rio Paraguai” – disse o filo de Seu Sinésio. Em épocas boas do ano, ir lá só de Toyota Bandeirante 4X4. “Na cheia é melhor esquecer – nada vai lá” completou o rapaz.

Veio à minha mente um nome: Guido Boggiani, um italiano. Há 104 anos, Boggiani percorrera a região do Nabileque. Partiu de Puerto Pacheco, Paraguai, à pé até o Forte Olimpo também Paraguai. Lá, ele seus ajudantes embarcaram em alguns “catchivéus” (Canoas) e remaram até a Boca do Rio Nabileque. Subiram o rio até um acampamento Kadiweu. De lá, conta Giovanni em livro deixado escrito, embarcou numa viagem a lombo de boi até a capital do Nabileque – segundo ele – chamada Nalique. Onde ficará hoje a Nalique?

O turista apressado hodierno não tem tempo nem de imaginar o que aconteceu lá em baixo. Muita gente morreu. Espanhóis, kadiwéus, portugueses e outros povos indígenas ou filhos da terra. Nos três meses em que Boggiani passou com os Kadiwéus, ele produziu os documentos mais valiosos sobre aqueles habitantes do Pantanal brasileiro e do Chaco paraguaio-boliviano. O amor dele pela descrição da fauna, flora e da paisagem – essa que se vê daqui de cima – é óbvio no texto. Ele se impressiona – como hoje eu também – com a cor azulada da Serra da Bodoquena vista à distância.


Guido Boggiani
Graças a Boggiani (foto) ainda temos hoje idéia das várias manifestações culturais artísticas dos Kadiweus praticadas naqueles dias e reproduzidas por Boggiani. Eram pequenas esculturas que ornam objetos pessoais como cachimbos, as espátulas de madeiras usadas para tecer, pequenos pentes de chifre, decoração de pequenas contas coloridas utilizadas em cintos e nos sacos de provisões. Ele narra a técnica de tecelagem e impressão utilizando um barbante. Graças a ele temos notícias da existência de marcas de posses que os Kadiweus imprimiam sobre toda espécie de material desde objetos, ao gado, aos cavalos e até as mulheres, sobre os postes totêmicos e em bandeiras com a insígnia de caciques.

O propósito da missão de Boggiani entre os Kadiweus era comercial. Ele estava lá para comprar coros de cervos (veados). A moeda de pagamento – à moda de outros contatos entre europeus e índios – era a pinga, a rapadura e os tecidos que ele portava em sua carga.

Para quem quer comprar coro de cervos, ele escolheu uma boa hora e uma boa região. A região que gosto de chamar de “Campos do Senhor” era chamada na época de “ região da grande caçada ao cervo ou segundo o mapa de Giovanni: “reggione delle grande caccie al cervo”. Uma vez por ano, os índios da Planície do Nabileque partiam na Grande Caçada – todos participavam, crianças, famílias e idosos. Como comerciante ele se deu mal. O resultado da expedição em liras italianas não foi muito bom. Ao sair do Nalique, do Nabileque, das “Montanhas de Miranda”, ele se considerou bem pago com a experiência cultural que leva, com as aquarelas pintadas, com desenhos feitos à pressa e com o seu diário. Seus escritos são hoje parte do acervo literário e cultural dos Kadiwéus ou guaicurús ou ainda dos “Índios Cavaleiros” - como também são chamados até hoje.

Para mi tudo isso aqui é uma Grande Fronteira. Assim batizei a excursão número dois de minha (ex) futura firma. Uma fronteira entre Cerrado e Mata Atlântica, Serra da Bodoquena e Pantanal. Fronteira no tempo. Passado e presente diante de mim. Fronteira de decisões políticas – IBAMA, FUNAI, INCRA, prefeituras e municípios. De braços abertos, como se fosse um grande urubu, o vento vindo de frente e subindo a montanha, parecia estar me elevando, é uma térmica ascendente e boa.

– Vai voar? Me assusta o Ricardo perguntando.
– Um dia! E você vem comigo
– Aqui deve ser bom para voar de asa delta – sugere.
– Não asa delta é para loucos. Aqui é um bom lugar para voar de para pente.

Continua...
Veja esta matéria no Monde diplomatique sobre o Nalique

terça-feira, 2 de junho de 2009

Minha lista de aves do Pantanal

Coloco abaixo, só para compartilhar, minha lista de pássaros do Pantanal. Não mudo nada. A lista é trilingue: inglês, português e latim (científico). Há notas em espanhol. Nos nomes em português aparecem também versões pantaneiras. Por que inglês primeiro? Porque a lista era para o meu cliente estrangeiro especialmente os de lingua inglesa, brancos, classe média alta ou ricos (mas não milionários) e geralmente protestantes. A lista tinha o propósito também de divertir os hoteleiros de Miranda especialmente o Aristeu Symczak do Hotel Pantanal. Eles riam quando eu dava explicações do tipo: vamos ver principalmente psitacídeos à tarde, caprimulgídeos na boca da noite e de manhã acordaremos com o canto de icterídeos - isso no centro de Miranda ou no máximo a um KM de distância do centro. Os nomes em português estão em itálico. Hoje noto que há alguns problemas, primeiro porque quando passei para o blog a formatação de lista se perdeu. Há coisas que nem me lembro porque fiz. Estou trabalhando nas mudanças!


Lista de algumas aves do Pantanal - Matogrosso do Sul
Lista de algunas aves de Pantanal - Matogrosso do Sul
List of some birds in the Pantanal of Southern Mato Grosso, Brazil

RHEIDAE
Greater Rhea Ema Rhea americana

TINAMIDAE
Spotted Tinamou Codorna Nothura maculosa
Red winged Tinamou Perdiz Rhynchotus rufescens
Small billed Tinamou --- Crypturellus parvirostris
Undulated Tinamou Jaó Crypturellus undulatus

PELECANIDAE
Neotropic Cormorant Biguá preto Phalacrocorax olivaceus**
Anhinga Biguá-tinga Anhinga anhinga**

CICONIDAE **
White-necked heron Garça cinza Ardea cocoi
Great Egret Garça branca Casmerodius alba
Snowy Egret Garça branca-pequena Egreta thula
Cattle Egret Garça companheira Bubulcos egreta
Whistling Heron Maria-faceira Syrigma sibilatrix
Rusfescent Tiger Heron Socó-boi-grande Tigrissoma lineatum
Pinnated Bittern Socó-boi Botaurus striatus
Striatated Heron Socozinho Butorides striatus
Black-crowned night-heron Socozinho dorminhoco Nyctorax nyctorax
Manguari Stork Tabuiaiá/ João Grande/ Cegonha Ciconia maguari**
Jabiru Tuiuiú / Jaburu Jabiru mycteria**
Woodstork Cabeça-seca Mycteria americana**
Buff-necked Ibis Curicaca / Despertador Theristicus caudatus**
Plubeos Ibis Curicaca Real / Chumbo Theristicus caerulescens
Green Ibis Tapicurú / Chapéu velho Mesembrinibis cayennensis
Bare-faced Ibis Tapicurú-preto/ maçarico Phimosus infuscatus
White-faced Ibis Caraúna Plegadis chihi
Roseate Spoonbill Colhereiro Ajaja ajaja**

ANSERIFORMES
Southern Screamer Tachã / Anhúma-póca Chauna torquata **
White-faced tree-duck Treré/ Marreca piadeira Dendrocygna viduata
Black-bellied tree-duck Marreca cabocla Dendrocygna autumnalis
ulvous tree-duck Marreca caneleira Dendrocygna bicolor
Brazilian duck Marreca Ananaí Amazoneta brasiliensis
Muscovy duck Pato-do-mato/ Patão Cairina moschata **

FALCONIFORMES
Black vulture Urubu comum Coragyps atratus
Turkey vulture Urubu-de cabeça-vermelha Cathartes aura
Lesser-yellow-headed-vulture Urubutinga/urubu-de-cabeça amarela Cathartes burrovianus
Snail kite Gavião caramujeiro Rosthramus socialbilis
Black-collared kite Gavião-belo ou velho Bussarelus nigricolis
Savanah Hawk Gavião-casaco-de-couro Heterospizias meridionalis
Great Black Hawk Gavião-preto ou negro Buteogallus urubutinga
Crested Caracara Carcará / Carancho Polyborus plancus
Yellow-headed Caracara Carrapateiro / Pinhé Milvago chimachima

GALLIFORMES
Rusty-margined Guan Jacupemba Penelope superciliaris
Chaco Chachalaca Aracuã Ortalis canicollis**
Black-fronted curassow Mutum Crax fasciolata
?-piping Guan Jacutinga Penelope pipile
?- piping Guan Jacutinga Penelope pipile granji

GRUIFORMES
Limpkin Carão Aramus guarauna
Gray-necked wood-rail Saracura Aramides cajanea
Common gallinule Frango d’água Gallinula chloropus
Red-legged Seriema Seriema Cariama cristata

CHARADRIFORMES
Wattled Jacana Jaçanã / Cafezinho Jacana jacana
Southern Lapwing Quero-quero Vanellus chilensis
South American Stilt Pernilongo Himantopus himantopus
Yellow-billed tern Trinta-réis Sterna superciliaris**
Large-billed tern Gaivota Comum Sterna simplex**
Black skimmer Talhamar / Taiamã Rynchops nigra**

COLUMBIFORMES
Picazuró pigeon Pomba trocaz/ Trocal / Asa branca Colomba picazuro
Pale-vented pigeon Pomba-verdadeira Columba cayanensis
White-tipped dove Juriti Leptotila verreauxi
Eared dove Pomba-do-bando Zenaida auriculata
Blue ground-dove Rola azul / Rolinha Claravis pretiosa
Picui ground-dove Rolinha mirim Columba picui
Ruddy ground-dove Rolinha-caldo-de-feijão Columbina talpacoti
Scaled-dove Fogo-apagou Scardafella squamata

PSITACIDAE
Red-and-green macaw Arara vermelha Ara chloroptera
Blue-and-yellow macaw Arara canindé Ara ararauna
Hyacinth macaw Arara Azul Anodorhynchus yacinthinus ***
Peach-fronted parakeet Jandaia estrela Aratinga aurea
Black-hooded parakeet Jandaia-de-cabeça-preta Nandayus nenday
Torquoise-fronted parrot Papagaio verdadeiro Amazona estiva
Monk parakeet Periquito-de-peito-cinzento Myopsitta monachus
Canary-winged parakeet Periquito-do-campo Brotogeris versicolaris

CUCULIFORMES
Smooth-billed ani Anu-preto Crotophaga ani
Guira cuckoo Anu-branco Guira guira
Pheasant cuckoo Saci Dromococcyx phasianelus
Dark-billed cuckoo Papa-lagarta Coccyzus melacoryphus
Squirrel cuckoo Alma de gato Piyaya cayana ---

STRIGIFORMES
Barn Owl Suindara Tyto alba
Ferruginous pigmy owl Caburé Glaucidium brasilianum
Tropical screech owl Corujinha-do-mato Otus choliba
Burrowing owl Coruja do campo/ Coruja buraqueira Speotyto cunicularia

CAPRIMULGIFORMES
Caprimulgus sp --- ---
Nictydromus aubicolis --- further study necessary (?)

TROGONIFORMES--- Surucuá -de- barriga-amarela Trogon viridis
--- Surucuá-de-coleira Trogon colaris
Blue-crowned trogon --- Trogon curucui

APODIFORMES

CORACIFORMES
Ringed kingfisher Matraca / martim-pescador Ceryle torquata
Amazon kingfisher Martim-pescador-verde Chloroceryle amazona
Green kingfisher Martim-pescador-pequeno-verde Chloroceryle americana
--- Martim-pescador-pequeno-pintado Chloroceryle inda
--- Martim-pescador-miudinho Chloroceryle aenea

PICIFORMES
--- Jacamacira Galbula ruficada
Toco toucan Tucanuçu Rhamphastos toco
Chestnut-eared arasari Araçari/ Tucaninho Pteroglossus castanotis
Crimson-crested woodpecker Pica-pau-de-topete-vermelho *Campephilus melanoleucos
Cream-backed woodpecker Pica-pau-de-topete-vermelho Campephilus leucopogon
Robust woodpecker Pica-pau-de-topete-vermelho Campephilus robustus
Field flicker Pica-pau do campo Colaptes campestris
Blond-crested woodpecker Pica-pau-de-topete-loiro Celeus flavescens

PASSERIFORMES
Red-billed scythebill Arapaçu de bico-torto Campilorhamphus trochilirostris
Black-banded woodcreeper Arapaçu-grande Dendrocolaptes picumnus
Great rufous woodcreeper Arapaçu-do-campo Xiphocolaptes maior
Rufous hornero João de Barro (Amassa barro) Furnarius rufus
Brown Cacholote Casaca de Couro Pseudoseisura (?)
Greater Thornbird Carpinteiro Phacelodomus rififrons
Sooty-fronted spinetail Carpinteiro Synalaxis frontalis
Great antshrike Chocão Taraba major
Barred antshrike Choca-barrada Thamnophilus doliatus
Variable antshrike Choca-da-mata Thamnophilus caerulescens

TYRANTS
Great Kiskadee Bem-te-vi-grande Pitangus sulphuratus
--- Bem-te-viznho Pitangus lictor
Tropical Kingbird Sirirí Tyranus melancholicus
Cattle Tyrant Sirirí-cavaleiro Machertornis rixosus
Vermilion Flycatcher Príncipe/verão/S.Joãozinho Pyrocephalus rubinus
Gray monjita Viuvinha Xolmis cinerea
Fork-tailed Flycatcher Tesoura Muscivora tyranus
White-monjita Noivinha Xolmis irupera
Pied-water Tyrant Lavadeira Fluvícola pica
White-headed Marsh Tyrant Freirinha-do-brejo Fluvicola leucocephala

HIRUNDINIDS
Barn Swallow Andorinha-do-bando Hirundo rustica
Rough-winged Swallow Andorinha-asa-de-serra Stelgidopterix ruficolis
Blue-and-white-Swallow Andorinha-azul-e-branco/das casas Notiochelidon cyanoleuca
Bank Swallow Andorinha-do-barranco/parda Riparia riparia
Gray-breasted Martin Andorinha-doméstica-grande Progne chalybea
White-winged Swallow Andorinha-do-rio Tachineta albiventer

CORVIDAE
Purplish Jay Gralha do Pantanal Cyanocorax cianomelas
Plush-crested Jay Gralha Azul Cyanocorax chrysops

TROGLODITAE
House Wren Corruíra / cambaxira Trogloditas aedon
--- Garrinchão-de-barriga-vermelha Thoryothorus sp
--- Garrinchão Campylorhynchus turdinus
--- --- Thryothorus leucotis
--- --- Thryothorus genibardis
--- --- Thryothorus guarayanus

MIMIDAE
Chalk-browed mockingbird Sabiá do Campo Mimus saturninus
White-banded mockingbird Sabiá-de-cinta-branca Mimus triurus
Ruffous-bellied Thrush - Sabiá-laranjeira ---

ICTERÍDEOS
Trupial João-pinto/corrupião Icterus icterus**
Epaulet --- Icterus cayanensis
Shiny cowbird Chopim Molothrus bonaerensis
Choppi blackbird Graúna Gnorimopsar chopi
Solitary cacique Iraúna Cacicus solitarius
Bay-winge-cowbird Asa-de-telha Molothrus badius
Yellow-rumped cacique Japi/xexéu Cacicus cela

TRAUPÍDEOS
Sayaca tanager Sanhaço-cinzento Thraupis sayaca
--- Sanhaço do coqueiro Thraupis palmarum
White-lined tanager Tiê-preto Tachyphonus rufus
Red-crowned-ant-tanager Tiê-do-Mato Grosso Rabia rupica
--- Tiê-galo Tachyphonus cristatus
Brazilian tanager Pipira vermelha/Bico-de-prata Remphocephalus carbo
Safrom finch Canário-da-terra Sicalis flaveola
Red-crested cardinal Galinho-da-campina Paroaria coronata
Yellow-billed cardinal Galinho da campina/Cardeal Paroaria capitata

EMBEREZÍDEOS
Pumbleous-seedeater Patativa Sporophila plumbea
Rusty-collared-seedeater Papa-capim (several) Sporophila collaris
Lined seedeater Bigodinho Sporophila lineola
Double-collared-seedeater Coleiro Virado Sporophila coerolescens
Graysh saltador Trinca-ferro Saltador coerulescens
Red-crested finch --- Coryphospingus cuculatus
Blue-black grassquit Serra-serra/
.... Tiziu Volatina jacarina

Books checked for names accuracy:
- (Aves de Argentina y Uruguay) Birds of Argentina & Uruguay
- Pássaros do Brasil, Eurico Santos, BH/MG/Brasil
- Conheça o Pantanal, Prof. Nidia Magalhaes, SP/Brasil
- Birds of Venezuela, Schauensee / USA
Nota:
** Os 2 asteriscos ao lado das espécies indicam que espécies se identificam mais com o Pantanal embora sejam vistos na planície borda do Pantanal ao redor da Serra da Bodoquena.
** Los 2 asteriscos al lado de las especies indican que especies se identifican más con Pantanal, pero son avistados en las planicies fronterizas al Pantanal al rededor de la Sierra de Bodoquena.
**The 2 asterisks indicate that birds are more related to the Pantanal floodplain even though they can be seen over the Serra da Bodoquena following the influence of the Pantanal.

***A arara azul é muito pantaneira embora chegue muito próximo à Serra da Bodoquena no que corresponde ao município de Miranda.
*** El guacamayo azul (Anodorhynchus yacinthinus) es de Pantanal pero puede llegar muy próximo a la Sierra de Bodoquena en la parte que corresponde al municipio de Miranda.
*** The hyacinth macaw is very “pantaneira” never seen over the Serra da Bodoquena even though they come very close. Hyacinth macaw do come to Miranda.
By Jackson Lima

domingo, 24 de maio de 2009

Mar de Xaraés: sempre desejei enteder isso


Foto de A.Zanella: à cavalo, atravessando o Mar de Xaraés ou o Jerez Ñú


Nota especial:
Escrita no dia 12 Maio de 2009




È normal lê-se sobre o Pantanal que os espanhóis chamavam a região de Mar de Xaraés. Sempre fiquei encucado com isso. Como mar? Por que e o que é Xaraés? Essas respostas só vieram este ano (2009) e já graças a existência desta maravilhosa ferramenta chamada blogs e da rede de blogs que se chama blogosfera.

Pesquisando encontrei um blog de Concepción, Paraguai, cidade que está nas margens do rio Paraguai. Na parte histórica do blog descobri que Xaraés é igual a “Jerez” que é o nome de uma cidade na Espanha que é uma espécie de irmã cultural de Foz do Iguaçu. A cidade se chama Jeréz de la Frontera. Por incrível que pareça, a primeira cidade fundada no Pantanal se chamou Santiago de Jerez. Isso foi lá em 1593. Portanto, creio, que quando os espanhóis falavam de Mar de Jerez se referiam a essa cidade. Só não sei como Jerez passou a ser chamado Xaraés.

E mar?

Quanto a palavra “Mar”, o blog mostra registros históricos dessa palavra como sendo “Ñú” que se pronuncia em português como Nhú. E o que é Nhú?

Éuma espécie de banhado. Ou seja Nhú é muito similar à idéia de “Pantanal” mas não como um pântano. Nhú é um campo extenso coberto por água de vez em quando. Vou
escrever mais sobre isso. O termo guarani Jeréz Ñú parece ter sido utilizado pelos espanhois no Paraguai. Na falta de uma equivalente em castelhano, entrou a palavra “mar” que chegou até nós como Mar de Xaraés. No Paraguai a palavra Ñú ocupa bom espaço nos mapas geográfico, Como Ñú Guazu, Ceballos Ñu e outros.

Continua ...

De bicicleta à Morraria do Sul II

A estradinha começou a subir. Engato marcha mais leve e a bicicleta responde bem. Começo a subir. A estradinha parece uma fileira de cabelo em cabeça de punk. Aqui começam as aflorações rochosas que meu amigo geógrafo falou. A vegetação na montanha é Mata Atlântica. Me emociono! Cada centímetro do Planeta me é interessante, cativante. Paro a bicicleta para respirar e a beleza e dar graças a Natureza pelo privilégio de estar aqui. Entro um pouco na vegetação. Que cheiro gostoso! Há muitos pássaros. Um casal de araras vermelhas voam a uns 100 metros de altura. Vão cruzando ao longo do vale. Pelo binóculos as observo. Enquanto voam não param de gritar. Se elas são iguais aos casais humanos devem estar brigando.

“Reduza a velocidade. Longo em trecho em declive”, dizia uma placa de trânsito. Placa de trânsito, aqui? É, aqui, mesmo.


Ponha declive nisso e acrescente cascalho, a Cassola com freio mais ou menos o resultado é igual a suicídio. Paro. Desço da Cassola e continuo a pé, os dois. Antes de chegar no fim do declive uma capelinha construída na rocha e várias cruzes registram, o local de um acidente. Descubro que foi feio. Uma Brasília verde-abacate passa por mim jogando poeira e pedra. Posso ser maldoso, mas aquela Brasília não tem cara de ter freio não.

A visão que se descortina daqui é uma surpresa. Um vale! À frente e à esquerda, está a entrada para uma fazenda bem cuidada. Montserrat, é o nome.

- É o nome da montanha onde parou a Arca de Noé, me informou um senhor que passou por aqui e com quem conversei rapidamente.

- Que arca? Aqui tem arca?
- A Arca de Noé, me disse para refrescar a minha memória. Se a missão de espalhar a Bíblia por todo o mundo é sinal do fim dele, então o fim já deve estar chegando. Não fiz nada para corrigir o erro do rapaz. Pra que dizer a ele que a Montanha onde Noé estacionou a Arca se chama Ararat? Deixa assim, Montserrat é mais latino.

No vale a estrada é reta e sem dificuldades. Por que não? Decido ir em frente [até Morraria]. O Vale é na realidade território do rio Salobra. O rio que coleta toda a água que deve cair das inúmeras nascentes dessa parte da Serra. Que o Salobra é o manda-chuva aqui pode ser deduzido pela quantidade de pontes de madeira que atravessam espaços hoje secos. Devem ser locais para o escoamento da água das várzeas do Salobra. Finalmente aparece o Salobra de verdade. Deve estar 13 quilômetros estrada adentro. Na beira do rio, há um monte de pescadores. O rio é azulado e profundo. Queria que os caiaques estivessem aqui. Seria lindo explorar o rio de caiaque. Que rio, o Salobra! Mais pra cima ele é azul piscina e transparente. Aqui é azulado mais sujo – quer dizer hoje. Lá pra baixo antes de desembocar no rio Miranda ele é igual ao rio Negro. É negro com visibilidade boa.

Misterioso esse Salobra. Em algumas épocas aqui se vê os pássaros do Pantanal como o Cabeça-seca, maguari, biguá. Ás vezes até tuiuiú. Isso é uma fronteira natural. Eu adoro fronteiras.

Uma boiada com pelo menos 500 cabeças, vem em minha direção. E agora? Que é que eu faço? Penso em voltar pedalando desesperadamente na frente do gado. Seria uma palhaçada. E se os animais se decidissem me acompanhar pensando, talvez, que eu fosse um vaqueiro ciclístico? Pensei melhor pulei a cerca e me escondi. Quer dizer nos escondemos. a Cassola e eu. Tomei providências para deixar-me ser visto pelos membros da comitiva – se não, eu poderia levar um tiro. Eu tinha muito medo de vaca. De touro, pior ainda.

A estrada reta e plana continuava como se não tivesse a intenção de ter fim. Já é tarde ou pelo menos parece. O céu está nublado. Quanto mais se chega perto do outro lado da cabeceira do vale, mais nublado fica.

Que horas são? É só curiosidade, para que saber de horas em uma aventura natural? O vale começa a estreitar-se. É lindo. A região de influência do Salobra começa a ficar para trás. Dos dois lados há montanhas cobertas de vegetação. Na rocha, nos espaços onde a vegetação não consegue se firmar, se vê buracos de vários formatos. Devem ser grutas. O pensamento me emociona.... Penso em fazer um curso de rapel para explorar essas escarpas. O mistério da montanha aumenta.


Como será a morraria? – me pergunto. Os flashes que me vêm à cabeça são imagens do Tibete, Katmandú. Parece que as nuvens negras estão sentadas ou apoiadas no topo das montanhas. Um riozinho desce o vale que agora fica mais estreito. Deve ser o rio do Engano. Ele ganhou esse nome porque ele engana. Apresenta-se sempre como pequeno e comportado. Mas quando o tempo desaba lá em cima, o rio transborda rápido e pega de surpresa a quem quer que tenha decidido acampar ao lado de suas calmas margens.

A estrada começa a subir. Cada vez mais eu e a bicicleta intercambiávamos funções. Eu levo, ela me leva. A subida fica mais séria. Há um desvio para à direita que leva à sede da Fazenda Pedra Branca. Penso rápido e entro nesse desvio. Os primeiros mil metros é banguela livre. Agora é só subida. Parece não ter fim essa subida. A estrada é estreita e parece não ter tanto movimento. Nos dois lados dela há cercas. No lado direito, vejo um rebanho de gado muito grande. Quantos são? Não sei. São jovens, parecem bezerros recém desmamados. Eles são curiosos. Todos param de comer e estão me olhando. Afinal tudo aqui é curioso. Passei por eles. Deve haver um milhão de olhinhos redondos, pretos, me olhando. Sinto a energia que emana dos animais – sinto o calor da energia bovina.

Eles começam a corre no meu lado. O barulho dos cascos golpeando o chão, o chafurdar da vegetação seca junto com o barulho de milhões de grilos e outros insetos decolando é inesquecível. Temo que haja um buraco na cerca e que de repente eles invadam a estrada e me imprensem, me matem pisoteado. Como mantenho os olhos grudados na lateral, na cerca, não vejo uma subida difícil à frente. Por isso, não consigo engatar uma marcha mais leve. A bicicleta morre no meio da ladeira e começa a descer de ré e em câmara lenta. Para o meu terror vejo que todos os animais estão parando ao meu lado enquanto eu luto para tomar pé. É como se eu estivesse me afogando no seco. Não consegui e a queda foi inevitável. Aterrissei suavemente no traseiro e em esforcei para não rolar ladeira abaixo pela Cassola no final do tombo. Fiquei muito nervoso e me preparava para fazer um discurso mental sobre a estupidez da pecuária, sobre o fato do planeta estar se transformando em um ‘planeta do gado’ em vias de ver a decretação da existência de uma explosão “vacográfica” em lugares como o Pantanal, a Savana Venezuelana outras tantas. Pensei na estupidez da criação de gado na modalidade conhecida como “extensiva” que necessita d tanta terra para uma vaca e nos baixos preços do produto. Aí aconteceu.

Encaro a multidão bovina na minha frente e me preparo para comunicar-lhe que eu as acho estúpidas e que os hindus são mais estúpidos ainda por não fazerem churrascos de vaca quando peã primeira vez na vida, descobri, ali, com são bonitinhos esses bezerros, esses garrotes, as vacas da variedade Nelore, brancas com aqueles olhinhos negros, brilhantes, curiosos e carinhosos. Não consegui segurar a gargalhada que aquela situação me provocou. Decidi conversar com meus novos amigos. Eu disse: vocês devem estar sorrindo, hein! Falem a verdade, estão se divertindo. Foi tão bom o meu encontro com meus irmãos contemporâneos bovinos que comecei a gostar de boi, vaca, bezerro e boiada no Pantanal. Creio ter ficado no chão por mais de 10 minutos, curtindo o momento, olhando os bezerros, conversando com eles, meu olho nos ‘zoinhos’ pretinhos deles.

Cheguei na sede da Fazenda Pedra Branca já entrada a noite, para meu desespero. Eu só pensava em pouso, comida, café, suco. Aparecer como se tivesse caído do céu em uma fazenda no meio da Serra da Bodoquena não é uma boa idéia. Você pode ser tudo: ladrão, criminoso, tarado, sequestrador; pode ser extraterrestre, espírito ruim, alma penada, tudo. Por isso eu já sabia que não iria ficar hospedado na ou seria atendido na fazenda. Dito e feito. Depois de conversar um pouco com os moradores e me reabastecer de água, parti para a estrada, fazendo todo caminho de volta, até encontrar a estrada para a Morraria. Tudo o que eu pensava era encontrar gente de bem, achar uma ao comida, uma cerveja de qualquer marca e uma cama. O arrependimento e a auto-recriminação de ter entrado nessa situação eram inevitáveis.

- Nunca mais sairei assim sem comida, barraca, liquido, me dizia. O que eu estou fazendo, logo eu que tenho um bom emprego me esperando no Paraná?

Agora já é noite de verdade. Milagrosamente as pesadas nuvens que taparam o sol durante toda a tarde, sumiram. No lugar das nuvens aparece uma bela lua cheia que ilumina o meu caminho. Sempre rezei que alguém iluminasse o meu caminho, mas nunca esperei que fosse desse jeito. Porém, nem tudo é perfeito. Acho que 99% das nuvens foram embora. O 1% que restou decidiu se entrepor entre mim e a lua exatamente na curva mais perigosa de descida. Na penumbra, vejo um vulto gigantesco no chão. Uma vaca! Freio desesperadamente e capoto. Vôo alguns metros e aterrisso de queixo no chão. A clássica aterrissagem malamanhada. Eu já vi pássaro pousar assim. Não sou p primeiro. Tive a impressão de sentir um estalo no pescoço – tak! Fiquei quieto.

Desencarnei, pensei. Morri na Serra da Bodoquena. Olho de lado. Primeiro à esquerda e logo à direita para se ver se vejo algum irmão para me receber.

- Bem-vindo irmão, acabaram seu dias de sufoco!
Nada! Ninguém. Decido, então, bater no chão. Pensei que se eu sentisse a pancada, eu ainda estaria no corpo. Estaria vivo! Assim fiz. Bati no chão segundo minha sábia decisão e senti a pancada. Daí, se eu não conseguisse mexer a cabeça teria quebrado o pescoço. Estaria paralítico na Serra da Bodoquena. Por milagre me levantei e decido descer a serra empurrando Cassola que milagrosamente não havia sofrido nada. Aprendi que não dava para confiar em ninguém. Nem na lua. Encontrei a bicicleta. Ela estava exatamente onde eu jurei ter visto uma vaca. Ela evaporou, se é que houve uma vaca ali. Terrorismo bovino!

Já passavam das onze horas da noite quando, de longe, avistei as luzes da Morraria do Sul. Veio a pressa de chegar. A subida continuava. Era difícil ver a estrada porque o brilho das luzes da iluminação pública, lá ao longe, encadeavam os meus olhos. É a poluição luminosa – um fenômeno que ainda não chama a atenção no Brasil. Tanto prova isso, que o adjetivo “luminoso” não é do entendimento comum. Talvez por isso conceito não seja claro como em poluição sonora, poluição visual e até poluição mental.

Meu último desastre por pouco não aconteceu na entrada do Distrito da Morraria do Sul. Há uma curva acentuada à direita para entrar no povoado. Há também duas pontes. Uma nova e usada atualmente e outra abandonada – só o esqueleto. A curva leva à segunda. E foi exatamente a que escolhi. Sorte que a vi a tempo. Um buraco imenso onde lá o fundo passa um rio seco, me esperava. Ufa!

Entrei no distrito da Morraria dependência administrativa de Bodoquena. Tudo estava fechado. O único lugar abeto era um barzinho. Havia quatro clientes lá. Apareci como se tivesse caído do céu. A turma se assustou com a minha aparição. Mostrei a bicicleta para provar que meu meio de transporte era legal. Queria evitar que eles pensassem em aparição extraterrestre ou coisa parecida. Pedi uma cerveja. Comida não tinha. Só amanhã. Continuo tentado quebrar o gelo.

Por sorte chega um táxi. Ele trazia o vereador do que representava o distrito em Bodoquena e que acabava de fazer uma caridade em benefício de uma eleitora. O vereador aproveitou para tomar uma gelada no barzinho. Empolgado com o surgimento de mais um visitante, reconheci o taxista. Aproveitei e anunciei: esse taxista me viu chegar em Bodoquena hoje à tarde. O taxista olha na minha direção e escuto:

Ué, não é que ele veio mesmo de bicicleta! Se admirou. Era o Negão lá de Bodoquena. Minha situação ficou confortável. Estava confirmada minha origem terrestre e aparentemente inofensiva. Conversamos todos até a partida do táxi do Negão e seu passageiro.

Continua

quarta-feira, 20 de maio de 2009

O OrnitoMira 1996 não saiu! Tou querendo fazê-lo! Você é Convidado


Vamos reativar a idéia. Clicando na foto dá para ler o material!


Eu avisei que neste blog tudo é meio museu. Gostou do recorte de jornal acima? Em 1996, me animei e tive a idéia de fazer esse I Encontro de Observadores de Pássaros de Miranda - Pantanal (1°OrnitoMira). Não saiu! Por quê? Não me lembro. Eu creio que nada acontece antes da hora. Hoje, 13 anos depois ainda quero fazer o I° OrnitoMira. O nome vem de 'Ornito' (Pássaro) e 'Mira' (Miranda e Mirar, espanhol). Era um evento para 'ornitomirar' ou 'mirar pájaros'. Miranda também dá ideia de mirante, lugar de onde se olha ou se observa coisas. Assim estou, de novo, lançando a idéia e estou buscando quem queira participar.

O espírito da coisa é o estilo 'observação amadora'. Não é exatamente para ornitólogo, no sentido estrito da palavra. É para amantes de pássaros, amantes do mato, amantes da vida. Haverá oportunidade de lazer, relaxamento e se desejar momentos ecoterapêuticos. Vamos desenvolver a idéia! Os interessados já podem enviar e-mail para mim (limajac@gmail.com).

O recorte acima é de um caderno da Folha de Londrina chamado "Ponte da Amizade" para Foz do Iguaçu e região. O caderno foi descontinuado porque o jornal foi vendido. Assinou a matéria o jornalista Montezuma Cruz hoje da Agência Amazônica de Notícias.