Coloco abaixo, só para compartilhar, minha lista de pássaros do Pantanal. Não mudo nada. A lista é trilingue: inglês, português e latim (científico). Há notas em espanhol. Nos nomes em português aparecem também versões pantaneiras. Por que inglês primeiro? Porque a lista era para o meu cliente estrangeiro especialmente os de lingua inglesa, brancos, classe média alta ou ricos (mas não milionários) e geralmente protestantes. A lista tinha o propósito também de divertir os hoteleiros de Miranda especialmente o Aristeu Symczak do Hotel Pantanal. Eles riam quando eu dava explicações do tipo: vamos ver principalmente psitacídeos à tarde, caprimulgídeos na boca da noite e de manhã acordaremos com o canto de icterídeos - isso no centro de Miranda ou no máximo a um KM de distância do centro. Os nomes em português estão em itálico. Hoje noto que há alguns problemas, primeiro porque quando passei para o blog a formatação de lista se perdeu. Há coisas que nem me lembro porque fiz. Estou trabalhando nas mudanças!
Lista de algumas aves do Pantanal - Matogrosso do Sul
Lista de algunas aves de Pantanal - Matogrosso do Sul
List of some birds in the Pantanal of Southern Mato Grosso, Brazil
RHEIDAE
Greater Rhea Ema Rhea americana
TINAMIDAE
Spotted Tinamou Codorna Nothura maculosa
Red winged Tinamou Perdiz Rhynchotus rufescens
Small billed Tinamou --- Crypturellus parvirostris
Undulated Tinamou Jaó Crypturellus undulatus
PELECANIDAE
Neotropic Cormorant Biguá preto Phalacrocorax olivaceus**
Anhinga Biguá-tinga Anhinga anhinga**
CICONIDAE **
White-necked heron Garça cinza Ardea cocoi
Great Egret Garça branca Casmerodius alba
Snowy Egret Garça branca-pequena Egreta thula
Cattle Egret Garça companheira Bubulcos egreta
Whistling Heron Maria-faceira Syrigma sibilatrix
Rusfescent Tiger Heron Socó-boi-grande Tigrissoma lineatum
Pinnated Bittern Socó-boi Botaurus striatus
Striatated Heron Socozinho Butorides striatus
Black-crowned night-heron Socozinho dorminhoco Nyctorax nyctorax
Manguari Stork Tabuiaiá/ João Grande/ Cegonha Ciconia maguari**
Jabiru Tuiuiú / Jaburu Jabiru mycteria**
Woodstork Cabeça-seca Mycteria americana**
Buff-necked Ibis Curicaca / Despertador Theristicus caudatus**
Plubeos Ibis Curicaca Real / Chumbo Theristicus caerulescens
Green Ibis Tapicurú / Chapéu velho Mesembrinibis cayennensis
Bare-faced Ibis Tapicurú-preto/ maçarico Phimosus infuscatus
White-faced Ibis Caraúna Plegadis chihi
Roseate Spoonbill Colhereiro Ajaja ajaja**
ANSERIFORMES
Southern Screamer Tachã / Anhúma-póca Chauna torquata **
White-faced tree-duck Treré/ Marreca piadeira Dendrocygna viduata
Black-bellied tree-duck Marreca cabocla Dendrocygna autumnalis
ulvous tree-duck Marreca caneleira Dendrocygna bicolor
Brazilian duck Marreca Ananaí Amazoneta brasiliensis
Muscovy duck Pato-do-mato/ Patão Cairina moschata **
FALCONIFORMES
Black vulture Urubu comum Coragyps atratus
Turkey vulture Urubu-de cabeça-vermelha Cathartes aura
Lesser-yellow-headed-vulture Urubutinga/urubu-de-cabeça amarela Cathartes burrovianus
Snail kite Gavião caramujeiro Rosthramus socialbilis
Black-collared kite Gavião-belo ou velho Bussarelus nigricolis
Savanah Hawk Gavião-casaco-de-couro Heterospizias meridionalis
Great Black Hawk Gavião-preto ou negro Buteogallus urubutinga
Crested Caracara Carcará / Carancho Polyborus plancus
Yellow-headed Caracara Carrapateiro / Pinhé Milvago chimachima
GALLIFORMES
Rusty-margined Guan Jacupemba Penelope superciliaris
Chaco Chachalaca Aracuã Ortalis canicollis**
Black-fronted curassow Mutum Crax fasciolata
?-piping Guan Jacutinga Penelope pipile
?- piping Guan Jacutinga Penelope pipile granji
GRUIFORMES
Limpkin Carão Aramus guarauna
Gray-necked wood-rail Saracura Aramides cajanea
Common gallinule Frango d’água Gallinula chloropus
Red-legged Seriema Seriema Cariama cristata
CHARADRIFORMES
Wattled Jacana Jaçanã / Cafezinho Jacana jacana
Southern Lapwing Quero-quero Vanellus chilensis
South American Stilt Pernilongo Himantopus himantopus
Yellow-billed tern Trinta-réis Sterna superciliaris**
Large-billed tern Gaivota Comum Sterna simplex**
Black skimmer Talhamar / Taiamã Rynchops nigra**
COLUMBIFORMES
Picazuró pigeon Pomba trocaz/ Trocal / Asa branca Colomba picazuro
Pale-vented pigeon Pomba-verdadeira Columba cayanensis
White-tipped dove Juriti Leptotila verreauxi
Eared dove Pomba-do-bando Zenaida auriculata
Blue ground-dove Rola azul / Rolinha Claravis pretiosa
Picui ground-dove Rolinha mirim Columba picui
Ruddy ground-dove Rolinha-caldo-de-feijão Columbina talpacoti
Scaled-dove Fogo-apagou Scardafella squamata
PSITACIDAE
Red-and-green macaw Arara vermelha Ara chloroptera
Blue-and-yellow macaw Arara canindé Ara ararauna
Hyacinth macaw Arara Azul Anodorhynchus yacinthinus ***
Peach-fronted parakeet Jandaia estrela Aratinga aurea
Black-hooded parakeet Jandaia-de-cabeça-preta Nandayus nenday
Torquoise-fronted parrot Papagaio verdadeiro Amazona estiva
Monk parakeet Periquito-de-peito-cinzento Myopsitta monachus
Canary-winged parakeet Periquito-do-campo Brotogeris versicolaris
CUCULIFORMES
Smooth-billed ani Anu-preto Crotophaga ani
Guira cuckoo Anu-branco Guira guira
Pheasant cuckoo Saci Dromococcyx phasianelus
Dark-billed cuckoo Papa-lagarta Coccyzus melacoryphus
Squirrel cuckoo Alma de gato Piyaya cayana ---
STRIGIFORMES
Barn Owl Suindara Tyto alba
Ferruginous pigmy owl Caburé Glaucidium brasilianum
Tropical screech owl Corujinha-do-mato Otus choliba
Burrowing owl Coruja do campo/ Coruja buraqueira Speotyto cunicularia
CAPRIMULGIFORMES
Caprimulgus sp --- ---
Nictydromus aubicolis --- further study necessary (?)
TROGONIFORMES--- Surucuá -de- barriga-amarela Trogon viridis
--- Surucuá-de-coleira Trogon colaris
Blue-crowned trogon --- Trogon curucui
APODIFORMES
CORACIFORMES
Ringed kingfisher Matraca / martim-pescador Ceryle torquata
Amazon kingfisher Martim-pescador-verde Chloroceryle amazona
Green kingfisher Martim-pescador-pequeno-verde Chloroceryle americana
--- Martim-pescador-pequeno-pintado Chloroceryle inda
--- Martim-pescador-miudinho Chloroceryle aenea
PICIFORMES
--- Jacamacira Galbula ruficada
Toco toucan Tucanuçu Rhamphastos toco
Chestnut-eared arasari Araçari/ Tucaninho Pteroglossus castanotis
Crimson-crested woodpecker Pica-pau-de-topete-vermelho *Campephilus melanoleucos
Cream-backed woodpecker Pica-pau-de-topete-vermelho Campephilus leucopogon
Robust woodpecker Pica-pau-de-topete-vermelho Campephilus robustus
Field flicker Pica-pau do campo Colaptes campestris
Blond-crested woodpecker Pica-pau-de-topete-loiro Celeus flavescens
PASSERIFORMES
Red-billed scythebill Arapaçu de bico-torto Campilorhamphus trochilirostris
Black-banded woodcreeper Arapaçu-grande Dendrocolaptes picumnus
Great rufous woodcreeper Arapaçu-do-campo Xiphocolaptes maior
Rufous hornero João de Barro (Amassa barro) Furnarius rufus
Brown Cacholote Casaca de Couro Pseudoseisura (?)
Greater Thornbird Carpinteiro Phacelodomus rififrons
Sooty-fronted spinetail Carpinteiro Synalaxis frontalis
Great antshrike Chocão Taraba major
Barred antshrike Choca-barrada Thamnophilus doliatus
Variable antshrike Choca-da-mata Thamnophilus caerulescens
TYRANTS
Great Kiskadee Bem-te-vi-grande Pitangus sulphuratus
--- Bem-te-viznho Pitangus lictor
Tropical Kingbird Sirirí Tyranus melancholicus
Cattle Tyrant Sirirí-cavaleiro Machertornis rixosus
Vermilion Flycatcher Príncipe/verão/S.Joãozinho Pyrocephalus rubinus
Gray monjita Viuvinha Xolmis cinerea
Fork-tailed Flycatcher Tesoura Muscivora tyranus
White-monjita Noivinha Xolmis irupera
Pied-water Tyrant Lavadeira Fluvícola pica
White-headed Marsh Tyrant Freirinha-do-brejo Fluvicola leucocephala
HIRUNDINIDS
Barn Swallow Andorinha-do-bando Hirundo rustica
Rough-winged Swallow Andorinha-asa-de-serra Stelgidopterix ruficolis
Blue-and-white-Swallow Andorinha-azul-e-branco/das casas Notiochelidon cyanoleuca
Bank Swallow Andorinha-do-barranco/parda Riparia riparia
Gray-breasted Martin Andorinha-doméstica-grande Progne chalybea
White-winged Swallow Andorinha-do-rio Tachineta albiventer
CORVIDAE
Purplish Jay Gralha do Pantanal Cyanocorax cianomelas
Plush-crested Jay Gralha Azul Cyanocorax chrysops
TROGLODITAE
House Wren Corruíra / cambaxira Trogloditas aedon
--- Garrinchão-de-barriga-vermelha Thoryothorus sp
--- Garrinchão Campylorhynchus turdinus
--- --- Thryothorus leucotis
--- --- Thryothorus genibardis
--- --- Thryothorus guarayanus
MIMIDAE
Chalk-browed mockingbird Sabiá do Campo Mimus saturninus
White-banded mockingbird Sabiá-de-cinta-branca Mimus triurus
Ruffous-bellied Thrush Sabiá-laranjeira+ ---
ICTERÍDEOS
Trupial João-pinto/corrupião Icterus icterus**
Epaulet --- Icterus cayanensis
Shiny cowbird Chopim Molothrus bonaerensis
Choppi blackbird Graúna Gnorimopsar chopi
Solitary cacique Iraúna Cacicus solitarius
Bay-winge-cowbird Asa-de-telha Molothrus badius
Yellow-rumped cacique Japi/xexéu Cacicus cela
TRAUPÍDEOS
Sayaca tanager Sanhaço-cinzento Thraupis sayaca
--- Sanhaço do coqueiro Thraupis palmarum
White-lined tanager Tiê-preto Tachyphonus rufus
Red-crowned-ant-tanager Tiê-do-Mato Grosso Rabia rupica
--- Tiê-galo Tachyphonus cristatus
Brazilian tanager Pipira vermelha/Bico-de-prata Remphocephalus carbo
Safrom finch Canário-da-terra Sicalis flaveola
Red-crested cardinal Galinho-da-campina Paroaria coronata
Yellow-billed cardinal Galinho da campina/Cardeal Paroaria capitata
EMBEREZÍDEOS
Pumbleous-seedeater Patativa Sporophila plumbea
Rusty-collared-seedeater Papa-capim (several) Sporophila collaris
Lined seedeater Bigodinho Sporophila lineola
Double-collared-seedeater Coleiro Virado Sporophila coerolescens
Graysh saltador Trinca-ferro Saltador coerulescens
Red-crested finch --- Coryphospingus cuculatus
Blue-black grassquit Serra-serra/
.... Tiziu Volatina jacarina
Books checked for names accuracy:
- (Aves de Argentina y Uruguay) Birds of Argentina & Uruguay
- Pássaros do Brasil, Eurico Santos, BH/MG/Brasil
- Conheça o Pantanal, Prof. Nidia Magalhaes, SP/Brasil
- Birds of Venezuela, Schauensee / USA
Nota:
** Os 2 asteriscos ao lado das espécies indicam que espécies se identificam mais com o Pantanal embora sejam vistos na planície borda do Pantanal ao redor da Serra da Bodoquena.
** Los 2 asteriscos al lado de las especies indican que especies se identifican más con Pantanal, pero son avistados en las planicies fronterizas al Pantanal al rededor de la Sierra de Bodoquena.
**The 2 asterisks indicate that birds are more related to the Pantanal floodplain even though they can be seen over the Serra da Bodoquena following the influence of the Pantanal.
***A arara azul é muito pantaneira embora chegue muito próximo à Serra da Bodoquena no que corresponde ao município de Miranda.
*** El guacamayo azul (Anodorhynchus yacinthinus) es de Pantanal pero puede llegar muy próximo a la Sierra de Bodoquena en la parte que corresponde al municipio de Miranda.
*** The hyacinth macaw is very “pantaneira” never seen over the Serra da Bodoquena even though they come very close. Hyacinth macaw do come to Miranda.
By Jackson Lima
terça-feira, 2 de junho de 2009
domingo, 24 de maio de 2009
Mar de Xaraés: sempre desejei enteder isso
Foto de A.Zanella: à cavalo, atravessando o Mar de Xaraés ou o Jerez Ñú
Nota especial:
Escrita no dia 12 Maio de 2009
È normal lê-se sobre o Pantanal que os espanhóis chamavam a região de Mar de Xaraés. Sempre fiquei encucado com isso. Como mar? Por que e o que é Xaraés? Essas respostas só vieram este ano (2009) e já graças a existência desta maravilhosa ferramenta chamada blogs e da rede de blogs que se chama blogosfera.
Pesquisando encontrei um blog de Concepción, Paraguai, cidade que está nas margens do rio Paraguai. Na parte histórica do blog descobri que Xaraés é igual a “Jerez” que é o nome de uma cidade na Espanha que é uma espécie de irmã cultural de Foz do Iguaçu. A cidade se chama Jeréz de la Frontera. Por incrível que pareça, a primeira cidade fundada no Pantanal se chamou Santiago de Jerez. Isso foi lá em 1593. Portanto, creio, que quando os espanhóis falavam de Mar de Jerez se referiam a essa cidade. Só não sei como Jerez passou a ser chamado Xaraés.
E mar?
Quanto a palavra “Mar”, o blog mostra registros históricos dessa palavra como sendo “Ñú” que se pronuncia em português como Nhú. E o que é Nhú?
Éuma espécie de banhado. Ou seja Nhú é muito similar à idéia de “Pantanal” mas não como um pântano. Nhú é um campo extenso coberto por água de vez em quando. Vou
escrever mais sobre isso. O termo guarani Jeréz Ñú parece ter sido utilizado pelos espanhois no Paraguai. Na falta de uma equivalente em castelhano, entrou a palavra “mar” que chegou até nós como Mar de Xaraés. No Paraguai a palavra Ñú ocupa bom espaço nos mapas geográfico, Como Ñú Guazu, Ceballos Ñu e outros.
Continua ...
De bicicleta à Morraria do Sul II
A estradinha começou a subir. Engato marcha mais leve e a bicicleta responde bem. Começo a subir. A estradinha parece uma fileira de cabelo em cabeça de punk. Aqui começam as aflorações rochosas que meu amigo geógrafo falou. A vegetação na montanha é Mata Atlântica. Me emociono! Cada centímetro do Planeta me é interessante, cativante. Paro a bicicleta para respirar e a beleza e dar graças a Natureza pelo privilégio de estar aqui. Entro um pouco na vegetação. Que cheiro gostoso! Há muitos pássaros. Um casal de araras vermelhas voam a uns 100 metros de altura. Vão cruzando ao longo do vale. Pelo binóculos as observo. Enquanto voam não param de gritar. Se elas são iguais aos casais humanos devem estar brigando.
“Reduza a velocidade. Longo em trecho em declive”, dizia uma placa de trânsito. Placa de trânsito, aqui? É, aqui, mesmo.
Ponha declive nisso e acrescente cascalho, a Cassola com freio mais ou menos o resultado é igual a suicídio. Paro. Desço da Cassola e continuo a pé, os dois. Antes de chegar no fim do declive uma capelinha construída na rocha e várias cruzes registram, o local de um acidente. Descubro que foi feio. Uma Brasília verde-abacate passa por mim jogando poeira e pedra. Posso ser maldoso, mas aquela Brasília não tem cara de ter freio não.
A visão que se descortina daqui é uma surpresa. Um vale! À frente e à esquerda, está a entrada para uma fazenda bem cuidada. Montserrat, é o nome.
- É o nome da montanha onde parou a Arca de Noé, me informou um senhor que passou por aqui e com quem conversei rapidamente.
- Que arca? Aqui tem arca?
- A Arca de Noé, me disse para refrescar a minha memória. Se a missão de espalhar a Bíblia por todo o mundo é sinal do fim dele, então o fim já deve estar chegando. Não fiz nada para corrigir o erro do rapaz. Pra que dizer a ele que a Montanha onde Noé estacionou a Arca se chama Ararat? Deixa assim, Montserrat é mais latino.
No vale a estrada é reta e sem dificuldades. Por que não? Decido ir em frente [até Morraria]. O Vale é na realidade território do rio Salobra. O rio que coleta toda a água que deve cair das inúmeras nascentes dessa parte da Serra. Que o Salobra é o manda-chuva aqui pode ser deduzido pela quantidade de pontes de madeira que atravessam espaços hoje secos. Devem ser locais para o escoamento da água das várzeas do Salobra. Finalmente aparece o Salobra de verdade. Deve estar 13 quilômetros estrada adentro. Na beira do rio, há um monte de pescadores. O rio é azulado e profundo. Queria que os caiaques estivessem aqui. Seria lindo explorar o rio de caiaque. Que rio, o Salobra! Mais pra cima ele é azul piscina e transparente. Aqui é azulado mais sujo – quer dizer hoje. Lá pra baixo antes de desembocar no rio Miranda ele é igual ao rio Negro. É negro com visibilidade boa.
Misterioso esse Salobra. Em algumas épocas aqui se vê os pássaros do Pantanal como o Cabeça-seca, maguari, biguá. Ás vezes até tuiuiú. Isso é uma fronteira natural. Eu adoro fronteiras.
Uma boiada com pelo menos 500 cabeças, vem em minha direção.
E agora? Que é que eu faço? Penso em voltar pedalando desesperadamente na frente do gado. Seria uma palhaçada. E se os animais se decidissem me acompanhar pensando, talvez, que eu fosse um vaqueiro ciclístico? Pensei melhor pulei a cerca e me escondi. Quer dizer nos escondemos. a Cassola e eu. Tomei providências para deixar-me ser visto pelos membros da comitiva – se não, eu poderia levar um tiro. Eu tinha muito medo de vaca. De touro, pior ainda.
A estrada reta e plana continuava como se não tivesse a intenção de ter fim. Já é tarde ou pelo menos parece. O céu está nublado. Quanto mais se chega perto do outro lado da cabeceira do vale, mais nublado fica.
Que horas são? É só curiosidade, para que saber de horas em uma aventura natural? O vale começa a estreitar-se. É lindo. A região de influência do Salobra começa a ficar para trás. Dos dois lados há montanhas cobertas de vegetação. Na rocha, nos espaços onde a vegetação não consegue se firmar, se vê buracos de vários formatos. Devem ser grutas. O pensamento me emociona.... Penso em fazer um curso de rapel para explorar essas escarpas. O mistério da montanha aumenta.
Como será a morraria? – me pergunto. Os flashes que me vêm à cabeça são imagens do Tibete, Katmandú. Parece que as nuvens negras estão sentadas ou apoiadas no topo das montanhas. Um riozinho desce o vale que agora fica mais estreito. Deve ser o rio do Engano. Ele ganhou esse nome porque ele engana. Apresenta-se sempre como pequeno e comportado. Mas quando o tempo desaba lá em cima, o rio transborda rápido e pega de surpresa a quem quer que tenha decidido acampar ao lado de suas calmas margens.
A estrada começa a subir. Cada vez mais eu e a bicicleta intercambiávamos funções. Eu levo, ela me leva. A subida fica mais séria. Há um desvio para à direita que leva à sede da Fazenda Pedra Branca. Penso rápido e entro nesse desvio. Os primeiros mil metros é banguela livre. Agora é só subida. Parece não ter fim essa subida. A estrada é estreita e parece não ter tanto movimento. Nos dois lados dela há cercas. No lado direito, vejo um rebanho de gado muito grande. Quantos são? Não sei. São jovens, parecem bezerros recém desmamados. Eles são curiosos. Todos param de comer e estão me olhando. Afinal tudo aqui é curioso. Passei por eles. Deve haver um milhão de olhinhos redondos, pretos, me olhando. Sinto a energia que emana dos animais – sinto o calor da energia bovina.
Eles começam a corre no meu lado. O barulho dos cascos golpeando o chão, o chafurdar da vegetação seca junto com o barulho de milhões de grilos e outros insetos decolando é inesquecível. Temo que haja um buraco na cerca e que de repente eles invadam a estrada e me imprensem, me matem pisoteado. Como mantenho os olhos grudados na lateral, na cerca, não vejo uma subida difícil à frente. Por isso, não consigo engatar uma marcha mais leve. A bicicleta morre no meio da ladeira e começa a descer de ré e em câmara lenta. Para o meu terror vejo que todos os animais estão parando ao meu lado enquanto eu luto para tomar pé. É como se eu estivesse me afogando no seco. Não consegui e a queda foi inevitável. Aterrissei suavemente no traseiro e em esforcei para não rolar ladeira abaixo pela Cassola no final do tombo. Fiquei muito nervoso e me preparava para fazer um discurso mental sobre a estupidez da pecuária, sobre o fato do planeta estar se transformando em um ‘planeta do gado’ em vias de ver a decretação da existência de uma explosão “vacográfica” em lugares como o Pantanal, a Savana Venezuelana outras tantas. Pensei na estupidez da criação de gado na modalidade conhecida como “extensiva” que necessita d tanta terra para uma vaca e nos baixos preços do produto. Aí aconteceu.
Encaro a multidão bovina na minha frente e me preparo para comunicar-lhe que eu as acho estúpidas e que os hindus são mais estúpidos ainda por não fazerem churrascos de vaca quando peã primeira vez na vida, descobri, ali, com são bonitinhos esses bezerros, esses garrotes, as vacas da variedade Nelore, brancas com aqueles olhinhos negros, brilhantes, curiosos e carinhosos. Não consegui segurar a gargalhada que aquela situação me provocou. Decidi conversar com meus novos amigos. Eu disse: vocês devem estar sorrindo, hein! Falem a verdade, estão se divertindo. Foi tão bom o meu encontro com meus irmãos contemporâneos bovinos que comecei a gostar de boi, vaca, bezerro e boiada no Pantanal. Creio ter ficado no chão por mais de 10 minutos, curtindo o momento, olhando os bezerros, conversando com eles, meu olho nos ‘zoinhos’ pretinhos deles.
Cheguei na sede da Fazenda Pedra Branca já entrada a noite, para meu desespero. Eu só pensava em pouso, comida, café, suco. Aparecer como se tivesse caído do céu em uma fazenda no meio da Serra da Bodoquena não é uma boa idéia. Você pode ser tudo: ladrão, criminoso, tarado, sequestrador; pode ser extraterrestre, espírito ruim, alma penada, tudo. Por isso eu já sabia que não iria ficar hospedado na ou seria atendido na fazenda. Dito e feito. Depois de conversar um pouco com os moradores e me reabastecer de água, parti para a estrada, fazendo todo caminho de volta, até encontrar a estrada para a Morraria. Tudo o que eu pensava era encontrar gente de bem, achar uma ao comida, uma cerveja de qualquer marca e uma cama. O arrependimento e a auto-recriminação de ter entrado nessa situação eram inevitáveis.
- Nunca mais sairei assim sem comida, barraca, liquido, me dizia. O que eu estou fazendo, logo eu que tenho um bom emprego me esperando no Paraná?
Agora já é noite de verdade. Milagrosamente as pesadas nuvens que taparam o sol durante toda a tarde, sumiram. No lugar das nuvens aparece uma bela lua cheia que ilumina o meu caminho. Sempre rezei que alguém iluminasse o meu caminho, mas nunca esperei que fosse desse jeito. Porém, nem tudo é perfeito. Acho que 99% das nuvens foram embora. O 1% que restou decidiu se entrepor entre mim e a lua exatamente na curva mais perigosa de descida. Na penumbra, vejo um vulto gigantesco no chão. Uma vaca! Freio desesperadamente e capoto. Vôo alguns metros e aterrisso de queixo no chão. A clássica aterrissagem malamanhada. Eu já vi pássaro pousar assim. Não sou p primeiro. Tive a impressão de sentir um estalo no pescoço – tak! Fiquei quieto.
Desencarnei, pensei. Morri na Serra da Bodoquena. Olho de lado. Primeiro à esquerda e logo à direita para se ver se vejo algum irmão para me receber.
- Bem-vindo irmão, acabaram seu dias de sufoco!
Nada! Ninguém. Decido, então, bater no chão. Pensei que se eu sentisse a pancada, eu ainda estaria no corpo. Estaria vivo! Assim fiz. Bati no chão segundo minha sábia decisão e senti a pancada. Daí, se eu não conseguisse mexer a cabeça teria quebrado o pescoço. Estaria paralítico na Serra da Bodoquena. Por milagre me levantei e decido descer a serra empurrando Cassola que milagrosamente não havia sofrido nada. Aprendi que não dava para confiar em ninguém. Nem na lua. Encontrei a bicicleta. Ela estava exatamente onde eu jurei ter visto uma vaca. Ela evaporou, se é que houve uma vaca ali. Terrorismo bovino!
Já passavam das onze horas da noite quando avistei as luzes da Morraria do Sul à distância. Veio a pressa de chegar. A subida continuava. Era difícil ver a estrada porque o rilho das luzes da iluminação pública, lá ao longe, encadeavam os meus olhos. É a poluição luminosa – um fenômeno que ainda não chama a atenção no Brasil. Tanto prova isso, que o adjetivo “luminoso” não é do entendimento comum. Talvez por isso conceito não seja claro como em poluição sonora, poluição visual e até poluição mental.
Meu último desastre por pouco não aconteceu na entrada do Distrito da Morraria do Sul. Há uma curva acentuada à direita para entrar no povoado. Há também duas pontes. Uma nova e usada atualmente e outra abandonada – só o esqueleto. A curva leva a segunda. E foi exatamente a que escolhi. Sorte que a vi a tempo. Um buraco imenso onde lá o fundo passa um rio seco, me esperava. Ufa!
Entrei no distrito da Morraria dependência administrativa de Bodoquena. Tudo estava fechado. O único lugar abeto era um barzinho. Havia quatro clientes lá. Apareci como se tivesse caído do céu. A turma se assustou com a minha aparição. Mostrei a bicicleta para provar que meu meio de transporte era legal. Queria evitar que eles pensassem em aparição extraterrestre ou coisa parecida. Pedi uma cerveja. Comida não tinha. Só amanhã. Continuo tentado quebrar o gelo.
Por sorte chega um táxi. Ele trazia o vereador do que representava o distrito em Bodoquena e que acabava de fazer uma caridade em benefício de uma eleitora. O vereador aproveitou para tomar uma gelada no barzinho. Empolgado com o surgimento de mais um visitante, reconheci o taxista. Aproveitei e anunciei: esse taxista me viu chegar em Bodoquena hoje à tarde. O taxista olha na minha direção e escuto:
Ué, não é que ele veio mesmo de bicicleta! Se admirou. Era o Negão lá de Bodoquena. Minha situação ficou confortável. Estava confirmada minha origem terrestre e aparentemente inofensiva. Conversamos todos até a partida do táxi do Negão e seu passageiro.
Continua
“Reduza a velocidade. Longo em trecho em declive”, dizia uma placa de trânsito. Placa de trânsito, aqui? É, aqui, mesmo.
Ponha declive nisso e acrescente cascalho, a Cassola com freio mais ou menos o resultado é igual a suicídio. Paro. Desço da Cassola e continuo a pé, os dois. Antes de chegar no fim do declive uma capelinha construída na rocha e várias cruzes registram, o local de um acidente. Descubro que foi feio. Uma Brasília verde-abacate passa por mim jogando poeira e pedra. Posso ser maldoso, mas aquela Brasília não tem cara de ter freio não.
A visão que se descortina daqui é uma surpresa. Um vale! À frente e à esquerda, está a entrada para uma fazenda bem cuidada. Montserrat, é o nome.
- É o nome da montanha onde parou a Arca de Noé, me informou um senhor que passou por aqui e com quem conversei rapidamente.
- Que arca? Aqui tem arca?
- A Arca de Noé, me disse para refrescar a minha memória. Se a missão de espalhar a Bíblia por todo o mundo é sinal do fim dele, então o fim já deve estar chegando. Não fiz nada para corrigir o erro do rapaz. Pra que dizer a ele que a Montanha onde Noé estacionou a Arca se chama Ararat? Deixa assim, Montserrat é mais latino.
No vale a estrada é reta e sem dificuldades. Por que não? Decido ir em frente [até Morraria]. O Vale é na realidade território do rio Salobra. O rio que coleta toda a água que deve cair das inúmeras nascentes dessa parte da Serra. Que o Salobra é o manda-chuva aqui pode ser deduzido pela quantidade de pontes de madeira que atravessam espaços hoje secos. Devem ser locais para o escoamento da água das várzeas do Salobra. Finalmente aparece o Salobra de verdade. Deve estar 13 quilômetros estrada adentro. Na beira do rio, há um monte de pescadores. O rio é azulado e profundo. Queria que os caiaques estivessem aqui. Seria lindo explorar o rio de caiaque. Que rio, o Salobra! Mais pra cima ele é azul piscina e transparente. Aqui é azulado mais sujo – quer dizer hoje. Lá pra baixo antes de desembocar no rio Miranda ele é igual ao rio Negro. É negro com visibilidade boa.
Misterioso esse Salobra. Em algumas épocas aqui se vê os pássaros do Pantanal como o Cabeça-seca, maguari, biguá. Ás vezes até tuiuiú. Isso é uma fronteira natural. Eu adoro fronteiras.
Uma boiada com pelo menos 500 cabeças, vem em minha direção.
E agora? Que é que eu faço? Penso em voltar pedalando desesperadamente na frente do gado. Seria uma palhaçada. E se os animais se decidissem me acompanhar pensando, talvez, que eu fosse um vaqueiro ciclístico? Pensei melhor pulei a cerca e me escondi. Quer dizer nos escondemos. a Cassola e eu. Tomei providências para deixar-me ser visto pelos membros da comitiva – se não, eu poderia levar um tiro. Eu tinha muito medo de vaca. De touro, pior ainda.
A estrada reta e plana continuava como se não tivesse a intenção de ter fim. Já é tarde ou pelo menos parece. O céu está nublado. Quanto mais se chega perto do outro lado da cabeceira do vale, mais nublado fica.
Que horas são? É só curiosidade, para que saber de horas em uma aventura natural? O vale começa a estreitar-se. É lindo. A região de influência do Salobra começa a ficar para trás. Dos dois lados há montanhas cobertas de vegetação. Na rocha, nos espaços onde a vegetação não consegue se firmar, se vê buracos de vários formatos. Devem ser grutas. O pensamento me emociona.... Penso em fazer um curso de rapel para explorar essas escarpas. O mistério da montanha aumenta.
Como será a morraria? – me pergunto. Os flashes que me vêm à cabeça são imagens do Tibete, Katmandú. Parece que as nuvens negras estão sentadas ou apoiadas no topo das montanhas. Um riozinho desce o vale que agora fica mais estreito. Deve ser o rio do Engano. Ele ganhou esse nome porque ele engana. Apresenta-se sempre como pequeno e comportado. Mas quando o tempo desaba lá em cima, o rio transborda rápido e pega de surpresa a quem quer que tenha decidido acampar ao lado de suas calmas margens.
A estrada começa a subir. Cada vez mais eu e a bicicleta intercambiávamos funções. Eu levo, ela me leva. A subida fica mais séria. Há um desvio para à direita que leva à sede da Fazenda Pedra Branca. Penso rápido e entro nesse desvio. Os primeiros mil metros é banguela livre. Agora é só subida. Parece não ter fim essa subida. A estrada é estreita e parece não ter tanto movimento. Nos dois lados dela há cercas. No lado direito, vejo um rebanho de gado muito grande. Quantos são? Não sei. São jovens, parecem bezerros recém desmamados. Eles são curiosos. Todos param de comer e estão me olhando. Afinal tudo aqui é curioso. Passei por eles. Deve haver um milhão de olhinhos redondos, pretos, me olhando. Sinto a energia que emana dos animais – sinto o calor da energia bovina.
Eles começam a corre no meu lado. O barulho dos cascos golpeando o chão, o chafurdar da vegetação seca junto com o barulho de milhões de grilos e outros insetos decolando é inesquecível. Temo que haja um buraco na cerca e que de repente eles invadam a estrada e me imprensem, me matem pisoteado. Como mantenho os olhos grudados na lateral, na cerca, não vejo uma subida difícil à frente. Por isso, não consigo engatar uma marcha mais leve. A bicicleta morre no meio da ladeira e começa a descer de ré e em câmara lenta. Para o meu terror vejo que todos os animais estão parando ao meu lado enquanto eu luto para tomar pé. É como se eu estivesse me afogando no seco. Não consegui e a queda foi inevitável. Aterrissei suavemente no traseiro e em esforcei para não rolar ladeira abaixo pela Cassola no final do tombo. Fiquei muito nervoso e me preparava para fazer um discurso mental sobre a estupidez da pecuária, sobre o fato do planeta estar se transformando em um ‘planeta do gado’ em vias de ver a decretação da existência de uma explosão “vacográfica” em lugares como o Pantanal, a Savana Venezuelana outras tantas. Pensei na estupidez da criação de gado na modalidade conhecida como “extensiva” que necessita d tanta terra para uma vaca e nos baixos preços do produto. Aí aconteceu.
Encaro a multidão bovina na minha frente e me preparo para comunicar-lhe que eu as acho estúpidas e que os hindus são mais estúpidos ainda por não fazerem churrascos de vaca quando peã primeira vez na vida, descobri, ali, com são bonitinhos esses bezerros, esses garrotes, as vacas da variedade Nelore, brancas com aqueles olhinhos negros, brilhantes, curiosos e carinhosos. Não consegui segurar a gargalhada que aquela situação me provocou. Decidi conversar com meus novos amigos. Eu disse: vocês devem estar sorrindo, hein! Falem a verdade, estão se divertindo. Foi tão bom o meu encontro com meus irmãos contemporâneos bovinos que comecei a gostar de boi, vaca, bezerro e boiada no Pantanal. Creio ter ficado no chão por mais de 10 minutos, curtindo o momento, olhando os bezerros, conversando com eles, meu olho nos ‘zoinhos’ pretinhos deles.
Cheguei na sede da Fazenda Pedra Branca já entrada a noite, para meu desespero. Eu só pensava em pouso, comida, café, suco. Aparecer como se tivesse caído do céu em uma fazenda no meio da Serra da Bodoquena não é uma boa idéia. Você pode ser tudo: ladrão, criminoso, tarado, sequestrador; pode ser extraterrestre, espírito ruim, alma penada, tudo. Por isso eu já sabia que não iria ficar hospedado na ou seria atendido na fazenda. Dito e feito. Depois de conversar um pouco com os moradores e me reabastecer de água, parti para a estrada, fazendo todo caminho de volta, até encontrar a estrada para a Morraria. Tudo o que eu pensava era encontrar gente de bem, achar uma ao comida, uma cerveja de qualquer marca e uma cama. O arrependimento e a auto-recriminação de ter entrado nessa situação eram inevitáveis.
- Nunca mais sairei assim sem comida, barraca, liquido, me dizia. O que eu estou fazendo, logo eu que tenho um bom emprego me esperando no Paraná?
Agora já é noite de verdade. Milagrosamente as pesadas nuvens que taparam o sol durante toda a tarde, sumiram. No lugar das nuvens aparece uma bela lua cheia que ilumina o meu caminho. Sempre rezei que alguém iluminasse o meu caminho, mas nunca esperei que fosse desse jeito. Porém, nem tudo é perfeito. Acho que 99% das nuvens foram embora. O 1% que restou decidiu se entrepor entre mim e a lua exatamente na curva mais perigosa de descida. Na penumbra, vejo um vulto gigantesco no chão. Uma vaca! Freio desesperadamente e capoto. Vôo alguns metros e aterrisso de queixo no chão. A clássica aterrissagem malamanhada. Eu já vi pássaro pousar assim. Não sou p primeiro. Tive a impressão de sentir um estalo no pescoço – tak! Fiquei quieto.
Desencarnei, pensei. Morri na Serra da Bodoquena. Olho de lado. Primeiro à esquerda e logo à direita para se ver se vejo algum irmão para me receber.
- Bem-vindo irmão, acabaram seu dias de sufoco!
Nada! Ninguém. Decido, então, bater no chão. Pensei que se eu sentisse a pancada, eu ainda estaria no corpo. Estaria vivo! Assim fiz. Bati no chão segundo minha sábia decisão e senti a pancada. Daí, se eu não conseguisse mexer a cabeça teria quebrado o pescoço. Estaria paralítico na Serra da Bodoquena. Por milagre me levantei e decido descer a serra empurrando Cassola que milagrosamente não havia sofrido nada. Aprendi que não dava para confiar em ninguém. Nem na lua. Encontrei a bicicleta. Ela estava exatamente onde eu jurei ter visto uma vaca. Ela evaporou, se é que houve uma vaca ali. Terrorismo bovino!
Já passavam das onze horas da noite quando avistei as luzes da Morraria do Sul à distância. Veio a pressa de chegar. A subida continuava. Era difícil ver a estrada porque o rilho das luzes da iluminação pública, lá ao longe, encadeavam os meus olhos. É a poluição luminosa – um fenômeno que ainda não chama a atenção no Brasil. Tanto prova isso, que o adjetivo “luminoso” não é do entendimento comum. Talvez por isso conceito não seja claro como em poluição sonora, poluição visual e até poluição mental.
Meu último desastre por pouco não aconteceu na entrada do Distrito da Morraria do Sul. Há uma curva acentuada à direita para entrar no povoado. Há também duas pontes. Uma nova e usada atualmente e outra abandonada – só o esqueleto. A curva leva a segunda. E foi exatamente a que escolhi. Sorte que a vi a tempo. Um buraco imenso onde lá o fundo passa um rio seco, me esperava. Ufa!
Entrei no distrito da Morraria dependência administrativa de Bodoquena. Tudo estava fechado. O único lugar abeto era um barzinho. Havia quatro clientes lá. Apareci como se tivesse caído do céu. A turma se assustou com a minha aparição. Mostrei a bicicleta para provar que meu meio de transporte era legal. Queria evitar que eles pensassem em aparição extraterrestre ou coisa parecida. Pedi uma cerveja. Comida não tinha. Só amanhã. Continuo tentado quebrar o gelo.
Por sorte chega um táxi. Ele trazia o vereador do que representava o distrito em Bodoquena e que acabava de fazer uma caridade em benefício de uma eleitora. O vereador aproveitou para tomar uma gelada no barzinho. Empolgado com o surgimento de mais um visitante, reconheci o taxista. Aproveitei e anunciei: esse taxista me viu chegar em Bodoquena hoje à tarde. O taxista olha na minha direção e escuto:
Ué, não é que ele veio mesmo de bicicleta! Se admirou. Era o Negão lá de Bodoquena. Minha situação ficou confortável. Estava confirmada minha origem terrestre e aparentemente inofensiva. Conversamos todos até a partida do táxi do Negão e seu passageiro.
Continua
quarta-feira, 20 de maio de 2009
O OrnitoMira 1996 não saiu! Tou querendo fazê-lo! Você é Convidado

Vamos reativar a idéia. Clicando na foto dá para ler o material!
Eu avisei que neste blog tudo é meio museu. Gostou do recorte de jornal acima? Em 1996, me animei e tive a idéia de fazer esse I Encontro de Observadores de Pássaros de Miranda - Pantanal (1°OrnitoMira). Não saiu! Por quê? Não me lembro. Eu creio que nasce acontece antes da hora. Hoje, 13 anos depois ainda quero fazer o I° OrnitoMira. O nome vem de 'Ornito' (Pássaro) e 'Mira' (Miranda e Mirar, espanhol). Era um evento para 'ornitomirar' ou 'mirar pájaros'. Miranda também dá ideia de mirante, lugar de onde se olha ou se observa coisas. Assim estou, de novo, lançando a idéia e estou buscando quem queira participar.
O espírito da coisa é o estilo 'observação amadora'. Não é exatamente para ornitólogo, no sentido estrito da palavra. É para amantes de pássaros, amantes do mato, amantes da vida. Haverá oportunidade de lazer, relaxamento e se desejar momentos ecoterapêuticos. Vamos desenvolver a idéia! Os interessados já ppoden enviar e-mail para mim (limajac@gmail.com).
O recorte acima é de um caderno da Folha de Londrina chamado "Ponte da Amizade" para Foz do Iguaçu e região. O caderno foi descontinuado porque o jornal foi vendido. Assinou a matéria o jornalista Montezuma Cruz hoje da Agência Amazônica de Notícias.
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terça-feira, 12 de maio de 2009
De bicicleta à Morraria do Sul
A Morraria do Sul é um lugar que existe realmente. Mas, em Miranda eu tinha impressão de que estava ouvindo falar de um lugar mitológico. Eu escutava falar dele, mas ninguém tinha ido lá.
- É lindo na Morraria. Tem muita pedra lá, alertava o Barba.
- Assim que trocar de carro, nós vamos lá, prometia o proprietário do hotel...
- Meu amigo tem uma fazenda lá, o clima é como na Suíça, dizia o dono do Hotel Pantanal. E eu pensava: de que esses caras estão falando? O Hotel Pantanal sempre foi minha espécie de base. Minha relação com ele foi interessante. Me hospedei nele por um tempo em troca de serviços. Fiz divulgação dele. Atendi grupos. Organizei festas. Um dia encontrei lá um geógrafo da UFMS. Começávamos a conversar e eu aproveitei para obter dicas sobre trabalhos realizados sobre a Serra, mapas, publicações onde eu pudesse ober dados sobre o relevo do Estado (MS), do Pantanal, da região entre Miranda e Aquidauana, Bodoquena, Jardim , Bonito, e et cétera. O ge[ografo me incentivou. Fiquei abismado! Não é fácil encontrar profissionais de alto nível acadêmico que se disponha a conversar e passar dicas para um simples guia de turismo sonhador. A distância entre academia e gente comum é muito grande e as relações me parecem perfeitamente “brochas”. Mas não ele. Ele me disse: “e eu fosse você, eu iria de bicicleta ou a pé. Não é lugar para chegar com ônibus de turistas”, alertou.
Partindo de quem partiu o conselho, não me levou muito tempo para fazer meus precipitados preparativos para a viagem. Eu não diria nada aos colegas que me prometiam levar para dar uma volta na região. Eles poderiam me segurar por muito tempo e eu não estava disposto a pegar aquele síndrome (já mencionado). Por azar, um desses colegas anunciou que tinha de submeter-se a uma cirurgia séria em Campo Grande. Depois de assegurar-me que tudo estava bem, dediquei-lhe mentalmente a viagem.
Na hora em que o colega dava entrada no hospital, eu embarcava em um ônibus amarelo escuro e branco do Expresso Mato Grosso. Destino: Bodoquena, a cidade, 54 quilômetros estrada abaixo e acima. Minha bagagem: uma bicicleta Cassola. Quadro feminino, cor vermelha, que eu havia ganho no meu aniversário anterior. A bicicleta tinha 18 marchas mas não me perguntem a marca do câmbio.
A estrada Miranda-Bodoquena já era minha conhecida. Ela atravessa uma área de cerrado. Nos pontos mais altos da MS 339 se pode ver a imensa vastidão da planície. Eu adoro ver as coisas do alto. Não se isso se deve ao fato de eu ser pára-quedista e parapentista* ou por ter sido urubu em alguma outra vida. A estrada asfaltada acompanha a direção do Rio Miranda até a entrada do Campo de Instrução Betione do Exército Brasileiro. Daí, a estrada segue o rio Betione que vem da Serra da Bodoquena e vai para a cidade do mesmo nome.
A Serra da Bodoquena se avoluma num crescente natural à frente, à direita e à esquerda. Não demora e o ônibus entra na pacata cidade onde, aparentemente, não acontece nada. Bodoquena já foi parte de Miranda e há 13 anos ganhou autonomia. O antigo nome de Bodoquena era Campão – o que ainda e usado por muita gente na região. O ônibus para na agência. Eu desço. O bagageiro se abre. A Cassola é gentilmente descarregada. Coloco a caramanhola – aquela garrafinha plástica para água – e volto meia quadra em direção à rua principal.
Há um taxista na esquina. Pergunto-lhe: qual é a direção da Morraria? Creio que deve haver mais um ou dois taxistas. O nome dele é Negão.
- O quê? Você que ir pra lá de bicicleta?
- Por quê?
- Não chega não. Pelo menos hoje não.
- Nada sério. Eu só quero saber o caminho, Vou até o trevo e volto. Talvez amanhã eu vá até lá mas vou de táxi. Com você, por que não, né?
Quando sai de perto do Negão, até eu acreditava que ia só até o trevo onde uma placa indica o caminho de chão. Parei em um bar. Tomei um refrigerante. Abasteci a caramanhola. Comprei uns chocolates do tipo Sonho de Valsa ou Valsa de Sonho.
A mão começou a coçar e eu obedeci, peguei a estrada. Que liberdade! Até o trevo há um longo trecho em declive. Descendo o trevo na banguela comecei a esquecer a estória de ir até o trevo. A visão daquelas montanhas mão era exatamente minha idéia de Mato Grosso. Há algo de mistério. Sei que não é mas tudo me parece pré-andino. Os circuitos de meu cérebro não conseguiam enviar-me os reflexos necessários para que eu identificasse onde estava, minha posição. Brasil? Cochabamba? Boyacá? O ar é mais fresco, o verde é intenso e à esquerda na estrada, no precipício, vejo uns caraguatás gigantes, imenso.
O trevo!
Volto?
Prossigo?
- Vou só até aquela subida, daí eu volto porque não to levando comida e água não é suficiente....
Pego a estrada de chão. Aqui o cascalho é natural. Terra de pedra. Logo na entrada da estrada há alguns colonos. Os colonos aqui é gaúcha.
À direita há um pequeno balneário com trampolim e tudo. A água é transparente e esverdeada.
- Lá pra frete deve ser mais transparente, pensei. Decido ir um pouco mais.
À esquerda há outro rio transparente também. Ele serve de lava-jato rápido. Um grupo de homens lava um caminhão no riozinho. As rodas traseiras do monstrengo estão dentro do rio. Abaixo do caminhão o rio esverdeado se torna ligeiramente mais escuro e mais oleoso. Será diesel ou graxa?
- Filhos da puta!
Meu primeiro grito de irritação. Não existe um destino melhor pra um rio do que ser lava-caminhão? As vacas da redondeza parecem ser boas de leite, elas têm úberes grandes. Lá na frente tem uma vaca holandesa, creio.
_______
* Notas: já não sou pára-quedista. Creio que tenho um pouco de
Labirintite. Já não sou parapentista. Embora ainda queira uma asa-escola para brincar. Nem “caiaco” mais. Todas as minhas bicicletas foram roubadas. Me atacou aquela síndrome?
- É lindo na Morraria. Tem muita pedra lá, alertava o Barba.
- Assim que trocar de carro, nós vamos lá, prometia o proprietário do hotel...
- Meu amigo tem uma fazenda lá, o clima é como na Suíça, dizia o dono do Hotel Pantanal. E eu pensava: de que esses caras estão falando? O Hotel Pantanal sempre foi minha espécie de base. Minha relação com ele foi interessante. Me hospedei nele por um tempo em troca de serviços. Fiz divulgação dele. Atendi grupos. Organizei festas. Um dia encontrei lá um geógrafo da UFMS. Começávamos a conversar e eu aproveitei para obter dicas sobre trabalhos realizados sobre a Serra, mapas, publicações onde eu pudesse ober dados sobre o relevo do Estado (MS), do Pantanal, da região entre Miranda e Aquidauana, Bodoquena, Jardim , Bonito, e et cétera. O ge[ografo me incentivou. Fiquei abismado! Não é fácil encontrar profissionais de alto nível acadêmico que se disponha a conversar e passar dicas para um simples guia de turismo sonhador. A distância entre academia e gente comum é muito grande e as relações me parecem perfeitamente “brochas”. Mas não ele. Ele me disse: “e eu fosse você, eu iria de bicicleta ou a pé. Não é lugar para chegar com ônibus de turistas”, alertou.
Partindo de quem partiu o conselho, não me levou muito tempo para fazer meus precipitados preparativos para a viagem. Eu não diria nada aos colegas que me prometiam levar para dar uma volta na região. Eles poderiam me segurar por muito tempo e eu não estava disposto a pegar aquele síndrome (já mencionado). Por azar, um desses colegas anunciou que tinha de submeter-se a uma cirurgia séria em Campo Grande. Depois de assegurar-me que tudo estava bem, dediquei-lhe mentalmente a viagem.
Na hora em que o colega dava entrada no hospital, eu embarcava em um ônibus amarelo escuro e branco do Expresso Mato Grosso. Destino: Bodoquena, a cidade, 54 quilômetros estrada abaixo e acima. Minha bagagem: uma bicicleta Cassola. Quadro feminino, cor vermelha, que eu havia ganho no meu aniversário anterior. A bicicleta tinha 18 marchas mas não me perguntem a marca do câmbio.
A estrada Miranda-Bodoquena já era minha conhecida. Ela atravessa uma área de cerrado. Nos pontos mais altos da MS 339 se pode ver a imensa vastidão da planície. Eu adoro ver as coisas do alto. Não se isso se deve ao fato de eu ser pára-quedista e parapentista* ou por ter sido urubu em alguma outra vida. A estrada asfaltada acompanha a direção do Rio Miranda até a entrada do Campo de Instrução Betione do Exército Brasileiro. Daí, a estrada segue o rio Betione que vem da Serra da Bodoquena e vai para a cidade do mesmo nome.
A Serra da Bodoquena se avoluma num crescente natural à frente, à direita e à esquerda. Não demora e o ônibus entra na pacata cidade onde, aparentemente, não acontece nada. Bodoquena já foi parte de Miranda e há 13 anos ganhou autonomia. O antigo nome de Bodoquena era Campão – o que ainda e usado por muita gente na região. O ônibus para na agência. Eu desço. O bagageiro se abre. A Cassola é gentilmente descarregada. Coloco a caramanhola – aquela garrafinha plástica para água – e volto meia quadra em direção à rua principal.
Há um taxista na esquina. Pergunto-lhe: qual é a direção da Morraria? Creio que deve haver mais um ou dois taxistas. O nome dele é Negão.
- O quê? Você que ir pra lá de bicicleta?
- Por quê?
- Não chega não. Pelo menos hoje não.
- Nada sério. Eu só quero saber o caminho, Vou até o trevo e volto. Talvez amanhã eu vá até lá mas vou de táxi. Com você, por que não, né?
Quando sai de perto do Negão, até eu acreditava que ia só até o trevo onde uma placa indica o caminho de chão. Parei em um bar. Tomei um refrigerante. Abasteci a caramanhola. Comprei uns chocolates do tipo Sonho de Valsa ou Valsa de Sonho.
A mão começou a coçar e eu obedeci, peguei a estrada. Que liberdade! Até o trevo há um longo trecho em declive. Descendo o trevo na banguela comecei a esquecer a estória de ir até o trevo. A visão daquelas montanhas mão era exatamente minha idéia de Mato Grosso. Há algo de mistério. Sei que não é mas tudo me parece pré-andino. Os circuitos de meu cérebro não conseguiam enviar-me os reflexos necessários para que eu identificasse onde estava, minha posição. Brasil? Cochabamba? Boyacá? O ar é mais fresco, o verde é intenso e à esquerda na estrada, no precipício, vejo uns caraguatás gigantes, imenso.
O trevo!
Volto?
Prossigo?
- Vou só até aquela subida, daí eu volto porque não to levando comida e água não é suficiente....
Pego a estrada de chão. Aqui o cascalho é natural. Terra de pedra. Logo na entrada da estrada há alguns colonos. Os colonos aqui é gaúcha.
À direita há um pequeno balneário com trampolim e tudo. A água é transparente e esverdeada.
- Lá pra frete deve ser mais transparente, pensei. Decido ir um pouco mais.
À esquerda há outro rio transparente também. Ele serve de lava-jato rápido. Um grupo de homens lava um caminhão no riozinho. As rodas traseiras do monstrengo estão dentro do rio. Abaixo do caminhão o rio esverdeado se torna ligeiramente mais escuro e mais oleoso. Será diesel ou graxa?
- Filhos da puta!
Meu primeiro grito de irritação. Não existe um destino melhor pra um rio do que ser lava-caminhão? As vacas da redondeza parecem ser boas de leite, elas têm úberes grandes. Lá na frente tem uma vaca holandesa, creio.
_______
* Notas: já não sou pára-quedista. Creio que tenho um pouco de
Labirintite. Já não sou parapentista. Embora ainda queira uma asa-escola para brincar. Nem “caiaco” mais. Todas as minhas bicicletas foram roubadas. Me atacou aquela síndrome?
sábado, 9 de maio de 2009
Caiaque no Pantanal: algumas fotos da região do São Pedro



Por Jackson Lima
Tres momentos da viagem solitária de caiaque, o instrumemnto apropriado para a exploração da natureza. Nada de Indiana Jones. É mais no estilo meditação. Sei da existência de um livro na França que passa dicas de yoga para caiaquistas. Há algo de mísitico nisso. Sempre fui disso. Hoje, continuo propondo viagens que seja o encontro do eco+espiritual+prazer+conhecimento que leva à descoberta de SI. Passar tranquilo pelos jacarés, pelos grandes e pequenos pássaros, lontras, capivaras, cobras, peixes, Isso é bonito. Em uma tardezinho, parei num barranco, para descansar e fumar (infelizmente na época, eu fumava, hoje parei). Levei um susto porque no meu lado, entre o barranco e eu, diretamente abaixo, havia um peixe dormindo. Não sei que peixe era. Tinha uns 40 ou 50 centímetros. É um privilégio! Peixe dormindo?
Quando me cansei de olhar, fiz um movimento para puxar-me para a terra e ele se assustou. Aí vi a violência da arrancada dele para fugir. Só de caiaque se pode fazer isso. Nem canoa consegue dar esta oportunidade. Na canoa a gente está muito alto da água. Já é uma "armação" estranha para o animal.
Canaã: o paraíso recuperado de Bodoquena



Fotos pertencentes a Crisval Turismo de Bonito mostram o rio Salobrinha e o espetáculo de paisagem. A foto de cima é de A.Zanella
O rio Salobrinha escavou esse cânion laboriosamente em sua viagem para o longinquo rio Paraguai. Ele nunca vai chegar lá. Antes disso, ele vai desembocar no rio Salobra, que vai para o rio Miranda, que bem mais adiante receberá o rio Aquidauana e aí, sim, todos chegarão, encarnados no Miranda, ao rio Paraguai. Nunca mais voltei a esta região maravilhosa e essa é uma das tristezas que levo na vida. Depois de tempo, já de volta à Foz do Iguaçu, escutei que foi criado um Parque Nacional na região. É possível que esta maravilha, ou seja, é impossível que esta maravilha não esteja dentro do Parque Nacional da Bodoquena.
Tenho a alegria de dizer que eu cheguei aí, pelo olfato, seguindo meu nariz. A região se chamava Canaã e era parte de um projeto de colonização. O Governo promoveu a colonização do Vale do Salobrinha com pessoas que foram removidas da Morraria do Sul devido à Reserva Cadivéu lá embaixo no Campo dos Índios. Quando eu cheguei ao Vale do Salobrinha, havia um bom número de moradores. Casinhas simples, sem eletricidade. Buscavam um equilíbrio entre a beira do barranco e as montanhas. Fiquei preocupado pelo desmatamento nos morros e os perigos de deslizamentos e que houveram. Pedras rolavam dos morros. Muitas eram vistas pela estradinha trafegável somente para caminhonetes C-10 desde que se tivesse a coragem de abrir e fechar muitas porteiras. Eu mesmo queria um pedacinho de terra lá. Eu poderia ter me enfiado ali pelo resto de minha vida.
O paredão rico em cachoeiras é também rico em cavernas. Quase morri em uma delas. E tudo por causa da Valquíria, uma menina que na época tinha uns oito ou nove anos. Quando eu ia para o Canaã, eu ficava na casa da família dela. Uma mãe viúva, com três filhos. Um rapaz adulto. Uma moça também adulta e a Valquíria. O pai morreu afogado no rio durante uma enchente-avalanche. São violentas as enchebtes daquele riozinho azul-piscina. Quando ele transborda, o azul dá lugar a uma água barrenta e as pequenas corredeiras por onde se vê dourados, piraputangas e outros peixes, viram águas violentas demais até para canoístas de águas bravas. Foi numa dessa enchentes que o pai, o chefe daquela família que me abrigava, morreu.
A Valquíria era minha guia. Ela parecia flutuar por cima das cachoeiras. Corria sobre pedras que cortavam meus pés. Saltava de cachoeiras, que me deixavam tonto e brincava de esconde-esconde em lugar onde eu morria de medo. Foi assim que ela me disse, gritando:
- Tio! Venha ver essa gruta! Entra tio. Vem!
Entrei na gruta. Eu tinha uma lanterna que pertencia a um amigo meu de Foz do Iguaçu, o Euclides que eu levei para conhecer. A família nos deu abrigo a todos. Eu fui passear com a Valquíria.
Na gruta, tudo estava escuro. A Valquíria me disse:
- Me dê a lanterna, tio!
Eu dei. Ela pegou a lanterna, apagou e cantou uma daqelas musiquinhas que as crianças sabem. Enganei o bobo, tra-lá,lá-la!!! Me vi no escuro mais escuro que pode existir. A gruta era arenosa. Por isso deve se chamar arenito. Era apertada e eu tenho tendência a ser claustrofóbico. Tentei ter calma para refazer o caminho. Não queria dar corda para a Valquíria. Eu também a chamava de "Porrinha". Era normal eu gritar "peraí porrinha", quando ela aprontava. E ela continuava a me amedrontar.
De repente, me vejo em uma espécie de tubo. Escorreguei e caí nesse tubo. Era mais um tobogã inclinado. Escorreguei. Estava de barriga no chão e indo pra baixo. Tentava segurar o corpo usando os cotovelos como freio. Logo parei. Não foi muito longa a queda. A porrinha sentiu que alguma coisa tinha acontecido.
- Tio! Tio!
Ela tentou chegra mais perto. Vi a luz da lanterna. Senti que vinha mais areia.
- Não venha, Valquíria! Vai ser prior. Vai chamar o outro tio e diz que ele traga cordas.
Esperei. Esperei, Esperei. Ainda bem que eu sempre tive uma calma zen na hora do pega. Fiquei quieto. Logo, o Euclides chegou. Me chamou.
- Passe a corda. O buraco não é fundo. Estou perto!
O Euclides, começo a soltar corda. Peguei e fui puxado para fora. Foi bem ver a Valquíria de novo. Ver o Euclides. Lá na casa, todo mundo esperando. Deu tudo certo. Naquele dia, acabou minha carreira de candidato a espeleologia. Voltamos à cachoeira com a irmã da Valquíria, ela, o Euclides e não me lembro se a Renate veio. Logo voltamos para Miranda. De lá eles prosseguiram para Foz do Iguaçu. Estar no Salobrinha, no Canaã, foi uma coisa mágica e poderosa. E Valquíria? E as famílias que moravam alí? Como terminou?
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